Nos regimes que receiam a verdade, a imprensa não cumpre o papel de informar, mas sim de reverberar o discurso do poder, justificar o injustificável e silenciar o que não pode ser dito. Em Moçambique, a entrevista concedida por Daniel Chapo à TVM, Rádio Moçambique e a Miramar não foi um exercício de transparência, mas sim uma encenação bem ensaiada, cuidadosamente montada para projectar a ilusão de um líder acessível e democrático.
Esses três órgãos, que deveriam servir ao interesse público, demonstraram mais uma vez que são peças de um mecanismo maior de manipulação, onde as perguntas difíceis não têm lugar e as respostas já vêm prontas. São o que aqui chamamos de o Eixo da Obediência – um trio alinhado, cujo compromisso não é com a verdade, mas com a preservação de um sistema que se recusa a ser questionado.
Na entrevista, Chapo lançou a perigosa narrativa de que os protestos se assemelham ao início do terrorismo em Cabo Delgado, um argumento clássico de governos que buscam justificar repressão contra qualquer contestação. Implicitamente, insinuou a necessidade de intervenção militar, deixando no ar a possibilidade de que o Estado pode ir além da força policial para lidar com as manifestações. Uma afirmação grave que, em qualquer país onde a imprensa cumpre o seu papel, teria sido questionada e confrontada com factos.
Mas a TVM, RM e Miramar não estão no negócio do jornalismo. Elas operam como correias de transmissão da narrativa oficial, preocupadas não em informar, mas em legitimar o poder. A prova disso é que, no final da entrevista, Chapo deixou transparecer que o diálogo com Venâncio Mondlane depende do reconhecimento dele como Presidente. Em outras palavras, a “abertura ao diálogo” é apenas um jogo de palavras para mascarar uma exigência de submissão.
Se vivêssemos num país onde a imprensa fosse verdadeiramente livre, essa entrevista teria sido um campo aberto para perguntas duras: sobre os protestos, sobre a legitimidade eleitoral, sobre a crise económica, sobre a repressão. Mas, no Eixo da Obediência, o papel dos jornalistas não é perguntar – é confirmar, repetir e aplaudir.
O problema, porém, é que a verdade tem um jeito incômodo de sobreviver ao silêncio imposto. E, quando a história for escrita, será fácil distinguir aqueles que serviram ao poder daqueles que serviram ao povo.
Reginaldo Mangue
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