Encontro reúne movimentos sociais, activistas e defensores dos direitos humanos para debater os desafios políticos, económicos e sociais do continente. Africans Rising defende maior unidade africana, denuncia interferências externas e apela à construção de soluções colectivas lideradas pelos próprios africanos.
A cidade de Maputo acolhe, a partir desta quinta-feira, 5 de Novembro, a terceira Assembleia dos Movimentos Pan-Africanos (AAMA), um encontro continental promovido pela Africans Rising, que pretende reunir activistas, defensores dos direitos humanos, organizações da sociedade civil, jornalistas, sindicalistas e outros agentes de mudança para discutir os desafios de África e definir estratégias conjuntas de transformação do continente.
Sob o lema “África Unida: O Futuro que Queremos“, a Assembleia pretende reforçar a articulação entre os movimentos africanos, promover a solidariedade continental e impulsionar iniciativas em defesa da justiça social, da democracia, dos direitos humanos e da livre circulação de pessoas.
Durante uma conferência de imprensa realizada esta quarta-feira, David Fardo, Presidente do Parlamento Juvenil, explicou que o encontro constitui uma oportunidade para os jovens africanos partilharem experiências, discutirem os problemas que enfrentam e apresentarem propostas concretas para responder aos desafios comuns.
Segundo Fardo, a iniciativa deverá reunir cerca de 200 jovens provenientes de diferentes países africanos, entre activistas e defensores dos direitos humanos, que irão debater matérias relacionadas com a governação, participação política, igualdade de género e mudanças climáticas.
Uma das principais bandeiras do encontro será a construção de uma África sem fronteiras, livre de vistos e de entraves burocráticos à circulação de pessoas, uma das prioridades defendidas pelo movimento Africans Rising.
“Falamos de uma África sem fronteiras, livre de vistos e de burocracias. Esta é uma das grandes marcas do African Rising”, afirmou David Fardo, acrescentando que a iniciativa pretende criar oportunidades de participação e intercâmbio entre jovens de diferentes países, ultrapassando igualmente as barreiras linguísticas que separam comunidades africanas.
O dirigente considera que os desafios enfrentados pela juventude moçambicana não são muito diferentes daqueles que afectam os jovens do Gana, da Nigéria e de outros países, defendendo, por isso, a necessidade de encontrar soluções conjuntas através da cooperação continental.
Africans Rising denuncia controlo externo dos recursos africanos
Por sua vez, Hardi Yakubu, coordenador da Africans Rising, afirmou que a terceira Assembleia dos Movimentos Pan-Africanos acontece num contexto internacional marcado por conflitos, desigualdades económicas, crises climáticas, desemprego e restrições às liberdades fundamentais.
Na sua intervenção, Yakubu alertou para aquilo que considera serem tentativas de controlo externo dos recursos e das economias africanas, denunciando igualmente a utilização de conflitos e divisões internas como instrumentos para manter a dependência do continente.

Segundo o responsável, os interesses imperialistas continuam a procurar transformar África numa fonte de recursos para sustentar os seus projectos económicos e tecnológicos, incluindo o desenvolvimento da inteligência artificial, enquanto recolhem dados em larga escala e procuram manter o controlo sobre as economias africanas.
“Falam abertamente em fazer da África a sua fonte de recursos para o seu chamado ‘futuro da IA’, ao mesmo tempo que recolhem os nossos dados em grandes quantidades. Querem continuar a controlar-nos. E procurarão dividir-nos para alcançar o seu objectivo”, declarou.
Hardi Yakubu apontou ainda a instabilidade política, as dificuldades económicas, a manipulação eleitoral, os cortes no acesso à Internet e a perseguição de activistas como alguns dos problemas que continuam a comprometer o desenvolvimento democrático dos países africanos.
Perante este cenário, defendeu que os africanos devem unir-se para determinar o seu próprio futuro, sem depender de interesses externos.
“África tem de falar a uma só voz. Temos de definir o nosso próprio futuro. África para os africanos, pelos africanos. É para isso que estamos aqui”, afirmou.
Assembleias anteriores deram origem a iniciativas continentais
O coordenador da Africans Rising recordou que a primeira Assembleia dos Movimentos Pan-Africanos realizou-se em Arusha, na Tanzânia, em Agosto de 2022, reunindo mais de 600 representantes de movimentos sociais, activistas, pan-africanistas, defensores dos direitos humanos e feministas.
Na ocasião, os participantes aprovaram a Declaração do Kilimanjaro revista, que passou a constituir um dos principais documentos orientadores da visão e dos compromissos do movimento.
A segunda Assembleia decorreu em Acra, no Gana, entre 29 e 31 de Agosto de 2024, sob o lema «Rumo à Solidariedade Pan-Africana: Unidos Permanecemos, Divididos Caímos». O encontro permitiu aprofundar a cooperação entre movimentos e reforçar os mecanismos de aprendizagem, partilha de competências e planificação colectiva.
Entre os resultados alcançados nas duas primeiras edições, Yakubu destacou o lançamento da campanha «África Sem Fronteiras», a criação da Rede Pan-Africana de Acção Solidária, o Programa de Intercâmbio do Movimento, o Grupo de Trabalho Feminista e a elaboração do Plano Estratégico Quinquenal da Africans Rising.
O responsável recordou igualmente que, durante a Assembleia de Acra, foi lançado um apelo aos dirigentes africanos para priorizarem a adopção do Protocolo sobre a Livre Circulação de Pessoas, uma reivindicação que considera continuar urgente.
Sete temas em debate e mais de mil participantes esperados
Para a edição de Maputo, Hardi Yakubu anunciou uma programação de 5 a 7 de Novembro, com a expectativa de participação de mais de mil pessoas, entre activistas, organizadores comunitários, jornalistas, artistas, sindicalistas, dirigentes da sociedade civil e aliados de diferentes regiões do continente, tanto presencialmente como através das plataformas digitais.
O programa estará estruturado em sete áreas temáticas, nomeadamente governação, democracia e poder popular; justiça económica; justiça climática e ecológica; justiça de género; reparações; unidade africana e uma África sem fronteiras; e tecnologias emergentes e organização digital.
A agenda inclui discursos de abertura, debates, sessões de trabalho, intercâmbios entre movimentos e espaços de reflexão, com destaque para a avaliação dos compromissos assumidos através da Declaração do Kilimanjaro.
Os organizadores pretendem que o encontro resulte em alianças mais fortes entre movimentos de diferentes regiões, línguas e gerações, bem como na definição de planos concretos de acção colectiva em defesa da justiça climática, igualdade de género, reparações, integração africana e protecção do espaço cívico.
Yakubu sublinhou que a intenção não é produzir mais uma declaração sem consequências práticas, mas estabelecer compromissos que possam orientar a intervenção dos movimentos sociais e dos cidadãos africanos.
“Não viemos a Maputo para elaborar mais uma declaração que fique a ganhar pó numa prateleira”, afirmou, defendendo que a Assembleia deve produzir um caminho claro, liderado pelos cidadãos, com particular atenção à participação dos jovens e das mulheres.
David Fardo destacou que a participação juvenil constitui uma das dimensões centrais da Assembleia, considerando que os jovens devem deixar de ser vistos apenas como destinatários das políticas públicas e passar a ocupar espaços de influência e decisão.
O Presidente do Parlamento Juvenil apelou à participação da sociedade moçambicana, particularmente dos jovens, lembrando que o encontro será realizado num formato híbrido, permitindo o acompanhamento e a participação através das plataformas digitais da Africans Rising.
Por seu turno, o coordenador da organização convidou os órgãos de comunicação social a acompanhar os trabalhos, documentar as experiências dos movimentos africanos e exigir a prestação de contas sobre os compromissos assumidos.
A terceira Assembleia dos Movimentos Pan-Africanos realiza-se num momento em que África continua confrontada com desafios relacionados com a governação, dependência económica, desigualdades sociais, conflitos e restrições das liberdades fundamentais, procurando afirmar a unidade e a capacidade dos seus cidadãos para influenciar o futuro do continente.
No encerramento da sua intervenção, Hardi Yakubu deixou uma mensagem de mobilização e continuidade da luta pan-africana: «A luta continua!»



