O recém-empossado Governador do Banco de Moçambique, Felisberto Dinis Navalha, afirmou esta terça-feira que pretende iniciar o seu mandato com uma avaliação aprofundada da situação cambial do país, reconhecendo que o mercado tem registado sinais de escassez de divisas, mas advertindo que ainda é prematuro avançar conclusões antes de analisar os dados disponíveis e auscultar os bancos comerciais.
Falando à imprensa após a cerimónia de tomada de posse, Navalha recordou que regressa à instituição depois de mais de quatro anos afastado, razão pela qual considera necessário inteirar-se da situação actual antes de anunciar medidas concretas.
“Há respostas que eu não posso avançar agora porque tenho que chegar, ver os números, conversar com os bancos para perceber realmente o que existe e quais são os constrangimentos que também estamos a enfrentar”, declarou.
O novo governador reconheceu que o mercado tem observado dificuldades no acesso a moeda estrangeira, uma preocupação frequentemente manifestada pelo sector empresarial, sobretudo por empresas dependentes de importações. No entanto, sublinhou que os relatórios internos do Banco de Moçambique apontam para a existência de reservas internacionais em níveis considerados aceitáveis.
Segundo explicou, uma das primeiras tarefas será confirmar a real dimensão do problema e compreender os desafios enfrentados pelos bancos comerciais, instituições que desempenham um papel central na disponibilização de divisas à economia.
“Quem produz o câmbio não é o Banco Central, são os bancos comerciais”, afirmou, acrescentando que apenas depois desse diagnóstico será possível desenhar políticas e estratégias de correcção, caso se revele necessário.
Questionado sobre as principais inovações que pretende introduzir na liderança do Banco Central, Navalha afastou a ideia de uma ruptura com o trabalho desenvolvido pelos seus antecessores, descrevendo a sua chegada como uma “corrida de estafeta”.
“O Banco de Moçambique é uma instituição com uma estrutura sólida e técnicos altamente competentes. Isto que estou a assumir hoje é uma corrida de estafeta. Há um processo que foi iniciado por antigos governadores e cabe-me agora continuar essa missão”, afirmou.
Entre as prioridades apontadas, destacou a preservação da estabilidade macroeconómica, considerada uma das principais responsabilidades do Banco Central.
Inclusão financeira através da tecnologia
Apesar do compromisso com a continuidade institucional, o novo governador identificou a inovação tecnológica como uma das áreas onde pretende concentrar esforços durante o seu mandato.
Navalha considera que a transformação digital pode desempenhar um papel decisivo na expansão dos serviços financeiros para milhões de moçambicanos que permanecem fora do sistema bancário formal, sobretudo nas zonas rurais.
Segundo explicou, Moçambique continua a registar níveis de inclusão financeira relativamente baixos quando comparados com outros países africanos que têm investido fortemente em soluções digitais para facilitar pagamentos, poupança e acesso ao crédito.
“Nós temos uma taxa de inclusão ainda bastante modesta. Há muita gente fora do sistema financeiro formal e sabemos que a independência económica é aquilo que o país procura. Com a inclusão financeira consegue-se também a inclusão económica”, defendeu.
O governador manifestou a ambição de aproximar Moçambique dos níveis de inclusão financeira alcançados por países como Quénia, Uganda e Tanzânia, que se destacam pelo uso de plataformas tecnológicas e serviços financeiros móveis para integrar populações tradicionalmente excluídas do sistema bancário.
Para Navalha, a massificação destas ferramentas poderá contribuir não apenas para aumentar o acesso aos serviços financeiros, mas também para impulsionar a participação económica dos cidadãos e reforçar a inclusão social em todo o território nacional.
A escassez de divisas e a expansão da inclusão financeira surgem, assim, como dois dos primeiros grandes desafios colocados ao novo governador do Banco de Moçambique, que assume funções num contexto marcado por pressões sobre o mercado cambial e pela necessidade de acelerar a modernização do sistema financeiro nacional.




