“Da Promessa ao Terreno: Uma Odisseia de Três Décadas”

Estava eu a pensar numa promessa de um governo que levou 30 anos para se concretizar. Trinta anos para entregar terrenos. Terrenos, algo que, à partida, seria das coisas mais simples de disponibilizar, pois não se trata de um bem a ser comprado no mercado internacional, nem de um projecto que exija tecnologia de ponta. São parcelas que pertencem ao Estado.

O Estado tem a tutela, tem os instrumentos legais, tem a máquina administrativa. Em teoria, tinha todas as condições para cumprir a promessa. Faltou, ao que parece, apenas vontade política.Foram cinco anos a mais do que o tempo que Abraão esperou pelo nascimento de Isaque, conforme narrado na Bíblia. Segundo o relato, a promessa feita a Abraão concretizou-se após 25 anos de espera, um período que muitos interpretam como tempo de preparação, amadurecimento e prova de fé. Havia um propósito na demora.

Já no caso dos terrenos, é difícil encontrar qualquer nobreza pedagógica na espera. Não se tratou de um teste espiritual, nem de um processo de capacitação dos beneficiários. Tratou-se, ao que tudo indica, de negligência institucional e de um hábito cultural profundamente enraizado: prometer hoje, adiar amanhã, justificar depois. Promessas feitas sem calendário claro, sem mecanismos de responsabilização e, muitas vezes, sem intenção real de cumprir com celeridade.

O mais inquietante não é apenas o atraso em si, mas a normalização do atraso e o festejo exagerado das pessoas politicamente associadas ao governo quando se cumpre tal promessa. Trinta anos deixam de ser escândalo e passam a ser estatística. E nós, cidadãos, vamos ajustando as expectativas à lentidão do sistema, como se fosse inevitável.

O que aprendo com isto?

Que tudo o que o governo me promete hoje, enquanto cidadão deste país, poderá talvez concretizar-se daqui a 30 anos, quando eu já estiver com 60 anos, a rever as mesmas promessas feitas à geração seguinte. E assim se perpetua um ciclo em que o tempo do Estado não acompanha o tempo da vida das pessoas. A única esperança que carrego é que daqui a 30 anos posso alcançar a independência económica!

Azar da minha mãe que faleceu na espera, lhe faltaram 30 anos pra o cumprimento da promessa de pagamento do valor das sua acções na PARCIM (Participações e Gestão da Companhia industrial da Matola. SARL) que os processos se perdiam com frequência no Ministério das finanças. Afinal, a dica é esperar 30 anos.

Nádio Jaime Taimo

Nádio Jaime Taimo é um jornalista, activista e líder cívico moçambicano. Nascido a 6 de Novembro de 1995 na Cidade da Matola , ele exerce a função de Director Executivo do 4Vês Repórter, um órgão de comunicação social e projecto informativo. Em sua actuação profissional e cívica, destaca-se por defender um jornalismo pautado na imparcialidade , além de conduzir parcerias com organizações da sociedade civil — como a AMJIGE — para promover campanhas e conteúdos de interesse público.

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