A cidade de Lichinga foi palco, neste Sábado, da Conferência Provincial da Juventude sobre Paz, um evento marcante que reuniu dezenas de jovens líderes, autoridades locais e parceiros de desenvolvimento. A iniciativa foi organizada pelo Conselho Nacional da Juventude (CNJ), em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a População (FNUAP), no âmbito do projecto “Minha Decisão, Meu Futuro”.
Na sessão de abertura, a Vice-Presidente do CNJ, Sónia Bila, saudou a juventude da província de Niassa e destacou o papel estratégico do evento como espaço de debate inclusivo e construtivo. Em seu discurso, Bila realçou que a conferência, realizada sob o lema “Juventude Comprometida com a Construção e Preservação da Paz em Moçambique”, constitui o culminar de encontros distritais e visa consolidar o posicionamento da juventude da região Norte em relação à agenda Juventude, Paz e Segurança.

“Pretendemos com este debate elaborar um posicionamento claro da juventude de Niassa, que não só alimente a futura Conferência Regional da Juventude sobre Paz, como também oriente acções concretas para a promoção da paz na província”, afirmou. A dirigente sublinhou ainda a necessidade de reforçar as capacidades das organizações comunitárias lideradas por jovens, encorajando o seu envolvimento directo nas dinâmicas de segurança e reconciliação.
No âmbito da Conferência Provincial de Jovens sobre Paz, o Secretário de Estado da Província do Niassa, Silva Livone, destacou a importância estratégica do engajamento juvenil e feminino na promoção da paz e segurança em Moçambique, particularmente na Província do Niassa.
Durante o seu discurso, Livone afirmou que a conferência visa reforçar o papel dos jovens e das mulheres como agentes activos na manutenção da paz, num contexto em que se registam preocupações com a ocorrência de fenómenos violentos no distrito de Mecula, inspirados nos modus operandi de grupos terroristas.

O Secretário de Estado aproveitou a ocasião para exortar a juventude e a população local à vigilância activa, apelando à denúncia de acções que ameacem a estabilidade e incentivando a colaboração com as autoridades na preservação da ordem pública. Livone destacou também o carácter naturalmente pacífico da Província do Niassa, mas alertou para a necessidade de se manter esse estatuto através de políticas públicas eficazes e do fortalecimento do papel cívico da juventude.
O Secretário de Estado saudou o Conselho Nacional da Juventude pelo seu papel visível na promoção da paz, e reiterou o compromisso do Governo, em coordenação com parceiros de cooperação, de continuar a desenvolver políticas inclusivas que incentivem os jovens a assumirem o seu papel na construção da paz
“A juventude é presente e precisa de ferramentas para transformar o país”, afirma Nádio Taimo
O evento contou com a participação e intervenção do jornalista e activista social Nádio Taimo como um dos oradores principais da conferência. Taimo abordou o tema “Envolvimento cívico dos jovens como factor-chave para a prevenção de conflitos e promoção da paz em Moçambique: Desafios e Perspectivas”, tema que também já havia apresentado durante a Conferência Distrital de Marrupa.
Com uma abordagem crítica e fundamentada, Taimo alertou para a urgência de se reconhecer a juventude como actor central na construção da paz. “A juventude não deve ser vista apenas como futuro, mas como presente. A sua energia, criatividade e capacidade de mobilização são essenciais para a construção de uma sociedade resiliente, democrática e em paz”, defendeu.

O orador sustentou o seu posicionamento citando instrumentos internacionais e regionais que consagram o papel dos jovens na promoção da paz, como as Resoluções 2250 (2015), 2419 (2018) e 2535 (2020) do Conselho de Segurança das Nações Unidas, a Carta Africana da Juventude, a Agenda 2063 da União Africana e a Política de Juventude da SADC. “Estes documentos apelam à inclusão significativa da juventude nos processos de decisão e reconstrução pós-conflito, e o nosso país já possui um quadro legal favorável. Mas falta-nos implementação prática e vontade política para transformar compromissos em realidade”, advertiu.
No âmbito nacional, Taimo lembrou que a Constituição da República de Moçambique garante aos jovens o direito à educação, trabalho, participação e lazer, elementos fundamentais para a sua contribuição activa na sociedade. Contudo, segundo o activista, ainda persistem entraves estruturais e sociais que comprometem esse potencial.
Entre os principais desafios destacados por Taimo, estão o desemprego juvenil, a falta de oportunidades económicas sustentáveis, a repressão política, a fraca educação cívica, além da ausência de políticas públicas verdadeiramente inclusivas. “A juventude enfrenta obstáculos sérios, desde a precariedade económica até perseguições políticas. Muitos jovens não têm sequer acesso a uma educação cívica contextualizada que lhes permita compreender os seus direitos e deveres”, denunciou.

Como soluções, Nádio Taimo defendeu o reforço da educação cívica prática, a inclusão digital como ferramenta de engajamento, o fortalecimento de plataformas juvenis de mobilização e o investimento em oportunidades económicas sustentáveis. “Não basta sentar jovens à mesa das decisões. É fundamental prepará-los para esse papel, com ferramentas, conhecimento e consciência crítica para melhor contribuir”, frisou. O orador apelou ainda à criação de mecanismos multissectoriais entre o governo, a sociedade civil e a juventude, visando garantir a execução efectiva das políticas de inclusão juvenil e a consolidação de uma paz duradoura.
Durante a sua intervenção, Nádio Taimo ressaltou ainda que a promoção da paz não se alcança apenas com políticas e discursos, mas exige a vivência de valores concretos no quotidiano dos cidadãos. Entre os principais valores mencionados, destacou a coabitação pacífica, como expressão do convívio harmonioso entre diferentes culturas e religiões, e a tolerância, entendida como o respeito pelas diversas opiniões e crenças. Apontou o diálogo como ferramenta essencial para a resolução de conflitos, defendendo a escuta activa, empática ao outro.

O respeito mútuo também foi apontado como princípio indispensável para o reconhecimento da dignidade humana, independentemente das diferenças sociais, políticas ou ideológicas. A justiça social, por sua vez, deve orientar os esforços por inclusão e equidade, garantindo oportunidades iguais para todos. A solidariedade, o pluralismo e a responsabilidade cívica foram igualmente enunciados como valores que fortalecem o tecido social e promovem uma cidadania activa e comprometida com o bem comum.
Taimo acrescentou ainda a empatia, onde se deve ter a capacidade de se colocar no lugar do outro, a não-violência como meio de resolução de disputas, e a importância da transparência e da honestidade na condução dos assuntos públicos. Por fim, sublinhou o espírito democrático como base de um país onde os direitos humanos, as liberdades fundamentais e a vontade do povo sejam respeitados.
A Conferência Provincial da Juventude sobre Paz em Niassa integra um ciclo de encontros regionais promovidos pelo CNJ que visam fomentar a cultura de paz, o diálogo intergeracional e o papel activo da juventude na construção de um Moçambique mais justo, seguro e inclusivo.

