Jessica Ubisse: da Seleção Moçambicana de Boxe ao Top‑20 Africano de CrossFit

Aos 29 anos, Jessica Fátima da Silva Ubisse renova o protagonismo feminino no desporto moçambicano e projecta levar a bandeira nacional a novas arenas internacionais. Tricampeã nacional de CrossFit entre 2023 e 2025 e actualmente entre as 20 melhores atletas do continente africano, Jessica é hoje referência incontornável de superação e excelência num desporto em crescimento no país. A sua trajectória atlética começa de forma lúdica, com uma corda de saltar nos recreios da escola primária, passa pelas balizas do futebol de bairro, pelos ringues da selecção nacional de boxe e culmina nos rigues metálicos do CrossFit disciplina onde hoje é símbolo nacional.

Em 2017, quando procurava oportunidades além do boxe olímpico, foi indicada por seu mentor, Mister Sinoia, para uma vaga de coach no CrossFit Índico, a primeira box afiliada em Moçambique. A contratação marcou o início de uma transformação profunda. “Durante o curso comecei a competir e percebi que queria ser atleta de CrossFit em tempo integral”, recorda. A afirmação exigia entrega total, mas a adversidade surgiria com força em 2024, durante os Rebel Renegade Games — a mais prestigiada competição do continente africano.

Na última bateria do evento, Jessica sofreu uma luxação grave no cotovelo esquerdo. “Naquele instante pensei: ‘acabou para mim’. Além da dor física, pesou o investimento de toda a equipa”, conta. A recuperação não exigiu cirurgia, mas implicou consultas na África do Sul e um rigoroso processo de fisioterapia, em parceria com o coach Eneas “Neco” Williams e a fisioterapeuta Sameerah Raman, da comunidade The Williams Lab.

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O retorno aos palcos foi triunfante. Cinco meses após a lesão, Jessica voltou à mesma arena, classificando-se entre as 20 melhores de África e tornando-se a primeira — e até agora única — atleta moçambicana, de qualquer género, a repetir presença num evento continental da modalidade.

A rotina da atleta é digna de elite. Em fase pré-competitiva, troca a habitual folga de domingo por segunda-feira, simulando o calendário dos torneios. Cada dia divide-se entre sessões de força (weightlifting e powerlifting), treinos metabólicos intensos (os chamados WODs), prática técnica e recuperação ativa. Soma-se a isso um plano alimentar rigoroso, sessões regulares de mobilidade, massagens, liberação miofascial e treino mental com visualizações, estratégias de respiração e reflexões diárias. Jessica treina na The Williams Lab e dá aulas no 233FitPack. Conciliar os dois papéis exige, segundo ela, “disciplina cirúrgica” para separar as horas de treinar e de ensinar. No entanto, considera a experiência mútua: “O que sinto na pele como atleta melhora meu trabalho de coach; e o que ensino refina minha mentalidade competitiva. É a prova viva da frase do filósofo Sêneca: ‘Ensinando, aprende‑se’”.

Apesar de o CrossFit ainda contar com poucas boxes afiliadas no país, Jessica observa um crescimento expressivo da modalidade e posiciona-se como embaixadora informal do movimento. Defende que é preciso olhar para além do pódio e envolver praticantes, patrocinadores, jornalistas, fotógrafos, organizadores e árbitros. “CrossFit é comunidade. Precisamos diferenciar o momento em que somos adversários na arena daquele em que somos aliados a desenvolver o movimento no país.”

Às futuras elites femininas, deixa conselhos diretos

“Experimentem, treinem pelo menos duas a três semanas antes de julgar; aprendam o movimento antes do peso; não tenham medo de ser fortes física e mentalmente; vivam como elites, com disciplina no treino, na nutrição, no sono e nos círculos sociais. “Hoje estou sozinha no topo da montanha. Quero ver outras moçambicanas aqui. Competitividade interna eleva a régua de todas nós”, desafia.

Para os próximos dois anos, Jessica planeia competir fora de África, levando Moçambique a novos palcos internacionais. No entanto, a falta de patrocínios limita o seu calendário competitivo. Em paralelo, pretende investir em formações técnicas, com o propósito de levar uma vida mais ativa e funcional a pessoas sedentárias ou com necessidades especiais. Mais do que medalhas, Jessica representa uma mudança de paradigma: uma atleta que transforma dor em motivação, disciplina em liberdade e a própria história em caminho para outras mulheres seguirem.

Por: Augusto Francisco

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