As festividades dos 50 anos da Independência Nacional decorrem ao seu ritmo no Estádio da Machava, com discursos oficiais, desfiles, bandeiras ao vento e um aparato simbólico digno da grandiosidade da data.
No entanto, fora desse círculo cerimonial, nos bairros ao redor e em muitas outras zonas do país, o ambiente é outro e o espírito é quase ausente. Nem parece que estamos a celebrar a mesma data. Para uma grande parte da população, o 25 de Junho passou a ser apenas mais um feriado no calendário.
Há uma maioria silenciosa, mas evidente, que não se sente representada nas festividades. É como se esta data, que em tempos foi símbolo de conquista, luta e esperança, já não lhes dissesse absolutamente nada.
Este desinteresse popular não surge por acaso. É fruto de décadas de frustração, exclusão e promessas não cumpridas. As pessoas estão a viver uma realidade em que o desemprego cresce, o custo de vida sufoca, os serviços básicos falham e a corrupção parece incontrolável. As Eleições são outro problema grave, que causa mortes nesta pátria. E as últimas eleições nos colocaram nesta situação de reconhecimento das figuras que nos governam assim como as suas próprias instituições.
Nessa conjuntura, festejar o quê? Com que ânimo? Com que dignidade?O que se vive é, na prática, uma dissonância entre o Estado e o povo, entre o discurso oficial e a realidade das ruas.Mais grave ainda, nota-se uma crescente perda do sentimento de pertença colectiva. Já não somos, como povo, aquele corpo coeso que se emocionava junto nas datas históricas.
A divisão social é palpável. Hoje, parece que há dois Moçambiques: o que aparece na televisão a bater palmas, e o que assiste de longe, desconfiado e cansado. É tempo de questionar se a independência pela qual se lutou com sangue e sacrifício está, de facto, a servir os interesses do povo ou apenas a manter a aparência de soberania numa estrutura cada vez mais desigual.
Porque, se a liberdade não é sentida no dia-a-dia, então talvez seja hora de lutarmos, agora não com armas, mas com consciência cívica por uma segunda libertação: da pobreza, da má governação e da indiferença institucional.
Por exemplo, Nós da Casa Branca na Matola, também queríamos ir ao Estádio. Sim, participar na cerimónia oficial dos 50 anos de Independência, cantar os hinos, partilhar o momento que, em teoria, deveria ser de todos. Afinal, também somos moçambicanos, também temos história, também temos direitos. Mas recuámos.
Não porque não tenhamos orgulho ou memória, mas porque não se pode celebrar a liberdade sob a mira de uma metralhadora. Não escapou a ninguém que, precisamente junto à nossa comunidade, foi colocado um blindado daqueles que não servem para transportar flores, mas para conter, ameaçar, intimidar. Foi ali, exactamente ali, como quem quer dizer sem dizer: “Vocês não são bem-vindos”.
Escolheram este ponto por acaso? Não parece. Por que não colocaram aquele tanque noutro bairro, noutro cruzamento, noutro quarteirão qualquer? Por que sempre aqui? A mensagem é clara: ainda nos vêem como problema, como ameaça, como algo a ser vigiado.
Ainda que não digam isso em palavras, dizem-no com armas.Como celebrar sob vigilância militar? Como sentir orgulho se o Estado coloca a sua força bélica a apontar para o próprio povo? Que tipo de independência é essa que precisa de blindados para se afirmar?
Quando a presença de cidadãos pobres e marginalizados causa mais preocupação do que a própria instabilidade que o país enfrenta, então é sinal de que há algo profundamente errado com as prioridades do governo.Blindados não escondem fracassos. Metralhadoras não apagam indignações.
E um país que festeja a independência reprimindo a sua própria população não celebra nada apenas encena um poder que já não convence. Se o Estado teme o seu povo, talvez seja o próprio Estado que esteja em dívida com ele.
NTAIMO

