Acompanhei, desde o primeiro minuto, a entrevista do nosso Ministro da Juventude e Desportos, Caifadine Manasse. À partida, parecia uma conversa promissora, um espaço para esclarecimentos e exposição de ideias estruturadas sobre os desafios e as oportunidades da juventude moçambicana. No entanto, o que se ouviu foi uma sucessão de evasivas, respostas vagas, discursos políticos e, acima de tudo, um alinhamento superficial às expectativas da juventude. O conteúdo reduziu-se a muito pouco.
O Ministro adoptou um tom recorrente de apelos ao patriotismo, à reconciliação e à paz, como se essas palavras pudessem, por si só, preencher o vazio deixado pela ausência de medidas concretas.A sua argumentação seguiu uma lógica circular: “o Governo está a fazer”, mas “os jovens devem ser patriotas”, “devem confiar no país” e “manter a paz”. Esta estrutura repetiu-se tantas vezes que ficou evidente o esforço em contornar perguntas objectivas com retórica de unidade nacional.
Houve um momento especialmente curioso, em que, sem qualquer ligação directa à pergunta do jornalista, o Ministro apelou a que se desse um voto de confiança ao Presidente da República, Daniel Chapo.
Quando confrontado sobre a participação dos jovens nos espaços de tomada de decisão, limitou-se a recomendar que aderissem ao Diálogo Político Inclusivo, reconhecendo, no entanto, que muitos não levavam esse processo a sério. Ora, o próprio Ministro parece não saber que esses espaços já estão ocupados pela Comissão Técnica e que restam apenas três posições reservadas à sociedade civil, as quais não serão necessariamente ocupadas por jovens. Fica a dúvida: de que participação estava ele a falar?
Num momento que demonstrou mais intenção partidária do que sentido de Estado, Caifadine criticou os partidos da oposição por não incluírem jovens nas suas listas para a Assembleia da República, elogiando a FRELIMO como modelo de inclusão juvenil. A sua colocação soou desnecessária, parcial e fora do tom que se esperaria de um titular de cargo público a falar para uma rádio nacional. Pior ainda, não foi capaz de esclarecer com clareza os mecanismos de financiamento para as políticas da juventude.
Referiu apenas que o governo pretende usar parte das taxas sobre bebidas alcoólicas para alimentar os fundos de desporto, artes e cultura, depois de muitas voltas retóricas que nada esclareceram.
A única novidade apresentada foi o plano de entrega de 4.800 kits de emprego ao longo deste ano. Tudo o resto foram repetições de chavões e frases motivacionais que não traduzem acções. O Ministro demonstrou não dominar com profundidade muitos dos temas que abordava. Por seu lado, o jornalista que o entrevistava também mostrou falta de preparação. Não puxou pelo conteúdo do Plano Quinquenal do Governo, nem exigiu explicações objectivas sobre promessas e compromissos do Executivo com a juventude.
Um dos pontos mais preocupantes da entrevista foi quando o Ministro afirmou que os formandos dos cursos de curta duração do IFPELAC recebem automaticamente kits de emprego. Questionei, publicamente, na página da Rádio Moçambique se ele estava seguro dessa afirmação ou se estava apenas a verbalizar um desejo. Quem respondeu não foi o próprio, mas Elton Madjaia, da OJM, que disse tratar-se de uma visão futura, explicando que o trabalho ainda precisa de ser feito para que essa prática se concretize. No entanto, o Ministro falou como se fosse uma medida já implementada, o que revela um claro desconhecimento sobre o funcionamento de um dos programas centrais do seu sector.
Mais adiante, Caifadine Manasse afirmou que o Governo reconhece o voluntariado através do Prémio Jovem Criativo. Ora, é evidente que esse prémio não contempla o voluntariado social, pois está voltado para artistas, empreendedores e projectos tecnológicos. Já critiquei publicamente esse enquadramento, mas nada foi alterado. O Ministro, ao fazer essa afirmação, mostrou mais uma vez que desconhece com profundidade os regulamentos e instrumentos que menciona nas suas intervenções públicas.
Sobre voluntariado, recordei me que participei na auscultação pública da Estratégia Nacional de Voluntariado (EV), aprovada a 1 de Agosto de 2023 pelo Conselho de Ministros. Fui o único naquela sala a levantar várias questões e a apresentar uma lista de recomendações após ter analisado a proposta preliminar, que era vaga quanto à execução do plano de actividades e à gestão do financiamento.
Segundo o documento aprovado, o orçamento previsto para a Estratégia entre 2023 e 2027 é de 117.200.060,00 meticais, distribuídos por cinco anos. São 13.252.058,00 meticais para 2023, 30.607.029,00 para 2024, 12.412.058,00 para 2025, 29.189.079,00 para 2026 e 31.107.083,00 para 2027.
Os valores estão alocados a três dos quatro pilares da Estratégia: o Pilar I – Engajamento ao Voluntariado, com 56.795.010,00 meticais; o Pilar II – Fortalecimento Institucional, com 23.800.000,00 meticais; e o Pilar III – Advocacia e Comunicação, com 31.024.000,00 meticais.O problema é que, depois da aprovação da Estratégia, nunca mais houve divulgação sobre o seu nível de execução.
Era isso que o Ministro deveria ter explicado na entrevista. Teria sido útil ouvir um balanço do que foi feito, o que está em curso e o que está pendente. Mas isso não aconteceu. Nem mesmo o Presidente do Conselho Nacional do Voluntariado, Deedar Guerra, parece em condições de esclarecer o que foi feito desde então. Diante disso, não podemos continuar a falar de voluntariado como se grandes marcos tivessem sido alcançados. Fora a aprovação da Estratégia, pouco se sabe sobre a sua implementação. O silêncio institucional é revelador. E, mais grave do que não fazer nada, é fingir que tudo está a correr como planeado.
A juventude moçambicana não precisa de mais discursos inflamados, precisa de políticas concretas, transparência e responsabilização real.
NTAIMO

