“No silêncio de vovô Samuel, ouço o eco no meu peito”

Um forte sentimento de dor domina-me. E enche os meus olhos de lágrimas que transbordam pelo meu rosto, silenciosamente, como se cada gota trouxesse consigo um pedaço da minha alma. A minha mente é invadida por memórias frescas, intensas, que se sobrepõem umas às outras num turbilhão de lembranças. Os meus sentimentos oscilam entre a dor lancinante da perda e a ternura nostálgica das recordações mais preciosas.

Por volta das quinze horas, a minha esposa telefonou-me. A sua voz, apesar de calma, carregava um peso que pressenti de imediato. Informou-me da morte do meu avô, pai da minha falecida mãe. Um silêncio tomou conta de mim, como se o mundo tivesse parado por um instante. Por um lado, compreendo a morte: ele já era idoso, a sua saúde fragilizava-se com o passar do tempo. Mas, por outro, não deixa de ser um golpe profundo. Perder o meu avô é como perder uma parte da minha própria história, das minhas raízes.

Exceptuando a sua esposa, minha avó, que faleceu quando eu ainda era criança e da qual conservo apenas breves imagens, o meu avô foi a pessoa com quem mais partilhei a minha infância, a adolescência e até parte da vida adulta. Era ele quem me esperava à porta da escola, quem me contava histórias de outros tempos, quem me ensinava pequenas lições de vida com gestos simples mas cheios de sabedoria. Era a única figura paterna dos meus pais que tive a felicidade de conhecer, pois os meus avós paternos já tinham falecido antes do meu nascimento.

O vovô Samuel representava, para mim, muito mais do que um avô. Representava o elo com o passado, com a tradição, com os valores familiares. Era ele quem mantinha viva a memória da minha mãe, e em cada gesto, em cada palavra, havia sempre um eco do amor incondicional que tinha por nós. E não havia dúvida alguma: eu era o seu neto favorito. Todos sabiam disso. Era um carinho que transparecia nos seus olhos quando me via, no modo como pronunciava o meu nome, no cuidado com que me tratava, mesmo nos dias em que a sua força já não era a mesma.

O amor que ele me dava era imensurável e inexplicável. Não havia como medir ou descrever esse laço, tão forte e tão puro. E agora, com a sua partida, fica um vazio que não sei se algum dia será preenchido. Mas também fica a gratidão por tudo o que partilhámos, por tudo o que me ensinou e por todo o amor que me deixou, esse, sim, eterno.

O meu avô expressava-se com uma elegância e correção raras. Era impressionante como dominava a língua portuguesa, falava com uma fluidez e clareza que deixavam todos admirados. Os meus amigos e colegas diziam frequentemente que parecia ter vivido em Portugal, tal era a sua forma de falar e a riqueza do seu vocabulário. Com cerca de cem anos de idade, possuía argumentos sólidos, discursos bem articulados, como se tivesse sido ele próprio a escrever a gramática da língua. Tinha sempre a memória fresca sobre acontecimentos do país, mantinha-se informado, atualizado, atento ao mundo.

Nunca o ouvi falar num dialeto regional ou com incorreções, usava o português como se fosse uma arte. E se, por acaso, alguém se exprimisse mal, com um erro de pronúncia ou de construção frásica, o meu avô corrigia de imediato, de forma firme mas sempre educado. Tinha um profundo respeito pela língua e transmitia esse respeito a todos à sua volta. Para ele, falar bem era também uma forma de dignidade, de identidade e de cultura.

A menos de um mês, o meu avô fez questão de sair de Fumento para Trevo, só para me visitar. Apesar das dificuldades nas pernas, provocadas pela idade avançada, o seu espírito era inquebrável. Infelizmente, naquele dia, não me encontrava em casa. Quando soube, senti um aperto no peito. Perguntei à minha esposa com quem é que ele teria vindo, pois não imaginava que conseguisse deslocar-se sozinho. Era próprio dele, nunca quis ser um peso para ninguém, e mesmo com dores ou limitações físicas, fazia o que o seu coração desejava. Essa última tentativa de visita ganhou agora um significado ainda mais profundo, foi o seu derradeiro gesto de carinho, a sua forma silenciosa de se despedir.

Adeus, meu avô. Ficas para sempre no meu coração. O teu exemplo, as tuas palavras, os teus silêncios, o teu amor, tudo viverá em mim, eternamente. A tua memória será honrada em cada passo que eu der, porque foste, és e serás sempre uma parte essencial daquilo que sou.

Siga-nos e curta nossa página:
error7
fb-share-icon
Tweet 20
fb-share-icon20

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *