É justo que se levante e lute, mas não apenas por causas individuais, pequenas e isoladas. A pátria chama por si, chama-lhe com urgência, com dor e com esperança. Lute por nós, que estamos em obra, a tentar corrigir aquilo que foi quebrado ao longo de anos de silêncio, exclusão e injustiça. Não permita que o nosso processo seja interrompido mais uma vez. Não permita. Agora, neste momento histórico, estamos em obra. Junte-se a nós. Seja um obreiro da sua própria liberdade e da liberdade colectiva. Busque a justiça social como quem busca ar para respirar. Porque, assim como eu, assim como nós, você também é vítima.
Ontem, você viu no telejornal: disseram que o país é rico em minérios, em recursos naturais, em potencial infinito. Chamaram-no para eleger, pediram-lhe o voto, prometeram-lhe o futuro. E depois esqueceram-se de si. Aliás, depois do seu voto, esse acto a que chamam direito democrático, você deixou de servir. Tornou-se descartável, como um objecto usado e atirado ao chão. Utilizaram-no para conquistar o poder e, uma vez lá chegados, inutilizaram-no. Esqueceram-se de si e passaram a viver o bom e o melhor sem você. Isso não lhe parece profundamente injusto? Não lhe dói saber disso?
Ainda assim, restam-lhe “chances”. Poucas, talvez, mas reais. Acorde. Lute por si e lute por nós. Não acha que precisamos sentar-nos e reflectir seriamente sobre as desigualdades que nos definem como país? Ter uma conversa franca, sem máscaras nem discursos vazios, sobre como podemos ser um país rico e, ao mesmo tempo, brutalmente desigual. Há necessidade urgente de falarmos sobre as nossas riquezas, aquelas que foram exploradas, vendidas e comercializadas sem consulta ao povo. Esqueceram-se de que tudo isto é nosso, e nós fomos deliberadamente excluídos do processo.
Isto é uma prioridade. Isto é sobre nós, sobre o presente que nos foi negado e sobre as futuras gerações que não podem herdar apenas ruínas. Conscientes daquilo que buscamos, caminhemos serenos, mas firmes; calmos, mas determinados; sempre objectivos. E quando chegarmos ao nível desejado, será impossível falar de justiça sem falar de reparação. Não haverá divisão justa enquanto as feridas permanecerem abertas. Há sequelas em nós, cicatrizes visíveis e invisíveis, feridas profundas que precisam de ser tratadas. Há dores acumuladas, traumas históricos e perdas irreparáveis que exigem reconhecimento e acção.
As reparações são pelos danos causados, porque até aqui estamos em obra. Estamos em busca de uma representatividade verdadeiramente justa, que não seja simbólica nem ornamental. O tempo que passámos nas sombras exige dos opressores mais do que palavras: exige reparação concreta. Uma indemnização justa por tudo aquilo que nos foi negado. Não tivemos as mesmas oportunidades. Fomos injustiçados durante demasiado tempo. A distribuição da riqueza nunca foi equitativa e, como se não bastasse, tiraram-nos até o pouco que tínhamos.
Roubaram-nos as terras férteis para o cultivo, destruíram as nossas habitações, limitaram a nossa liberdade e, em muitos casos, desintegraram as nossas famílias. Ainda assim, estamos aqui. Feridos, mas de pé. Em obra. Acorde. Levante-se. Lute por nós, porque lutar por nós é, no fundo, lutar por si mesmo.
NTAIMO
NB: Este prólogo é o texto de abertura do meu "quase" livro intitulado “Estamos em obra”- Um manifesto de liberdade e justiça social.... ainda em composição desde 2021.

