As eleições da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), marcadas para 26 de Julho, estão a decorrer sob um forte clima de instabilidade institucional, suspeições e denúncias de irregularidades que colocam em causa a transparência do processo e a credibilidade da organização.
No centro da controvérsia está a candidatura de Filimone Meigos, líder da lista A, que enfrenta pelo menos três pedidos formais de impugnação por alegados conflitos de interesse, violação da imparcialidade e falta de ética associativa. Meigos é acusado de ter presidido à sessão da Assembleia-Geral que elegeu a Comissão Eleitoral, em Abril, e de ter continuado a exercer funções como presidente da Mesa da Assembleia até depois da sua candidatura ser formalizada, em 4 de Julho.
As duas cartas de impugnação, submetidas à Comissão Eleitoral e à direcção da AEMO, exigem a suspensão imediata de Filimone Meigos de qualquer função organizativa relacionada ao processo, a destituição do presidente da Comissão Eleitoral e a constituição de um novo órgão, independente e preferencialmente externo, para garantir a lisura das eleições.
Outro ponto de tensão diz respeito à regularização das quotas dos membros. Segundo os contestatários, houve facilitação irregular da participação de apoiantes da lista A no processo eleitoral, mesmo estando fora dos prazos estipulados para pagamento. A medida teria sido deliberada numa reunião conduzida pelo próprio Meigos enquanto ainda presidia à Mesa da Assembleia, o que, para os subscritores das impugnações, representa um claro favorecimento.
Apesar da gravidade das denúncias, a Comissão Eleitoral rejeitou os pedidos, alegando não existirem evidências legais ou factuais de envolvimento indevido de Meigos após a sua inscrição como candidato. Ainda assim, fez um alerta insólito onde destaca que o uso “abusivo” do direito de impugnação pode ser interpretado como violação dos deveres eleitorais, o que poderia até levar à desqualificação dos próprios impugnadores, uma inversão interpretativa que agravou o mal-estar no seio da agremiação.
A CE reconhece que parte dos membros contestatários têm as quotas regularizadas e estão inscritos legalmente, mas insiste que decisões sobre admissibilidade de membros cabem exclusivamente à Assembleia-Geral, e não à comissão eleitoral.
Como se não bastasse a confusão administrativa, o ambiente eleitoral da AEMO foi ainda mais atravessado por um processo judicial em curso contra um dos candidatos. O Tribunal Judicial do Distrito KaMpfumo, na Cidade de Maputo, marcou para 15 de Julho o julgamento do Processo n.º 150/2025-B, referente a um caso de lesão corporal e difamação ocorrido no recinto da AEMO. O acusado é Aurélio Furdela, cabeça de lista B e membro activo da AEMO, actualmente a concorrer ao cargo de secretário-geral da agremiação. Segundo apurou o 4Vês Repórter junto a fontes próximas do processo, a vítima, Mariza Domingos, já foi oficialmente notificada para comparecer à audiência marcada para o dia 15 de Julho, no Tribunal Judicial do Distrito KaMpfumo, na Cidade de Maputo.
O caso, que envolve alegações de lesão corporal e difamação ocorridas no recinto do Centro Social da AEMO, reacende o debate sobre a integridade moral dos candidatos e a necessidade de padrões éticos mais rigorosos para o exercício de cargos em organizações culturais. Em comunicado recente, a Plataforma de Mulheres pela Justiça classificou o julgamento como um momento crucial na luta contra a violência baseada no género, defendendo que o acompanhamento atento por parte da sociedade civil é fundamental para garantir justiça e combater a impunidade, sobretudo quando os acusados ocupam posições de poder.
A existência desta acção judicial é vista, por diversos membros da AEMO, como um factor adicional de preocupação em torno da candidatura de Furdela. “Como confiar numa liderança que entra no processo eleitoral com pendências judiciais graves?”, questionou um membro que preferiu o anonimato. Para esses membros, a situação fragiliza ainda mais a imagem da lista B e levanta sérias dúvidas quanto à sua capacidade de conduzir a associação com legitimidade e credibilidade.
Com duas das três listas mergulhadas em supostas polémicas, uma por motivos judiciais e outra por acusações de manipulação interna, o processo eleitoral da AEMO pode se transformar num reflexo do esvaziamento institucional que há anos mina a organização. E neste ambiente tumultuado, cresce silenciosamente um sentimento de apoio à candidatura de Luís Cezerilo, líder da Lista C. Vários membros ouvidos pelo 4Vês Repórter, sob anonimato, afirmam que apesar da “gritaria” institucional, Cezerilo representa “a opção mais séria e serena” entre os concorrentes.
“Está tudo muito barulhento. Há muita confusão. O Cezerilo pode não estar no centro das discussões, mas isso é uma vantagem. Parece mais focado em ideias do que em jogos internos de poder”, comentou um dos membros sénior da associação.
Luís Cezerilo lançou oficialmente a sua candidatura esta segunda-feira em Maputo num evento que decorreu sob o lema: “Unir vozes para fortalecer a escrita moçambicana”, representa um compromisso firme com a valorização da literatura nacional, inclusão de novas vozes, internacionalização da produção literária moçambicana e reforço da profissionalização da AEMO enquanto instituição cultural de referência. Entretanto, segundo as nossas fontes, longe das disputas e das manobras internas que minam o prestígio da associação, Cezerilo surge como uma alternativa que agrada aos que anseiam por um novo ciclo na AEMO, mais calmo, mais justo e verdadeiramente centrado na literatura e nos escritores.

