Investigação

Danúbio Lado abandona a ZHONGMEI, mas mantém “boa relação” com antigos sócios

O 4Vês Repórter voltou a entrevistar Danubio Lado, director do Gabinete de Desenvolvimento Estratégico e Institucional (GDEI) do Conselho Municipal de Maputo, que, durante as investigações do jornal, surgiu associado aos sócios da empresa ZHONGMEI Engineering Group. Diferentemente da primeira entrevista, desta vez o responsável mostrou-se disponível para responder a várias perguntas do nosso jornal sobre a sua relação com a empresa, que aparece em vários concursos públicos adjudicados recentemente.

Recentemente, Danúbio Lado foi mencionado num artigo publicado pelo nosso jornal, no qual a referência à sua participação na empresa teve como base uma publicação no Boletim da República. Segundo o documento em referência, o responsável detinha uma participação de 51% do capital social da empresa, correspondente a 15.300.000,00 meticais, na sequência de uma cessão de quotas deliberada em Assembleia Geral Extraordinária, realizada a 1 de Março de 2024.

Dados actualizados indicam que Danubio Lado já não faz parte da ZHONGMEI Engineering Group. Importa destacar que a sua trajectória na estrutura societária da empresa começou em 2015, tendo saído em 2020, regressado em 2024 e voltado a retirar-se em Novembro de 2025. Esta cronologia foi confirmada pelo próprio, em entrevista, e num documento enviado pela sua assessoria.

O Boletim da República n.º 2046, de 23 de Dezembro de 2025, confirma a saída de Danubio Lado da sociedade. Com as alterações, a ZHONGMEI Engineering Group, Limitada, passou a deter 99% do capital social, correspondente a 29,7 milhões de meticais, enquanto Liu Weiwen permaneceu com os restantes 1%, equivalentes a 300 mil meticais. As alterações foram efectuadas a 20 de Novembro de 2025.

Questionado pelo nosso jornal sobre os motivos que o levaram a sair da sociedade, em Novembro de 2025, Danúbio Lado afirmou que a decisão foi motivada por “questões pessoais”, sem, contudo, apresentar mais detalhes. Sobre a proveniência dos 15,3 milhões de meticais correspondentes à sua participação de 51% na empresa, afirmou que nunca chegou a investir qualquer valor para adquirir essa participação.

“Eu acho que você percebeu que não são acções, é participação nominal. É uma sociedade anónima que compra as acções. É participação nominal. Nesta participação não investi nenhum valor, foi tudo através de amigos. Sou formado na República Popular da China, fiz amizades e as mesmas convidaram-me para fazer parte da sociedade. Eu nunca cheguei a tirar dinheiro”, disse Danúbio Lado, em entrevista.

O 4Vês Repórter sabe que Danúbio Lado realizou a sua formação académica na prestigiada Nankai University, na China. Após o percurso académico, integrou os quadros da Agência de Promoção de Investimento e Exportações (APIEX), onde desempenhou funções como técnico oficial de comunicação de marketing, lidando directamente com a facilitação de novos projectos de investimento e a atracção de capital estrangeiro para o mercado moçambicano.

Durante a entrevista, Danubio Lado esclareceu que o seu percurso profissional deve ser descrito com rigor, sublinhando que se encontra em comissão de serviço no Conselho Municipal de Maputo desde Junho de 2020. Segundo explicou, esta situação não deve ser confundida com um vínculo profissional directo com a instituição.

“Eu não sou funcionário do município. Estou cá em comissão de serviço. Sou quadro da Agência de Promoção de Investimento e Exportações (APIEX). Não sou do município”, explicou o entrevistado.

Nega relações com Hefeng Dong, mas o conheceu na APIEX

O responsável abordou igualmente este assunto quando foi questionado sobre uma possível relação profissional com o ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, tendo em conta que ambos possuem experiência profissional ligada ao Município de Maputo.

“Quando ele começou a trabalhar no município, eu era estudante. Estava a terminar a minha formação. Então, não me podem associar a pessoas com quem não tenho nenhuma relação”, esclareceu.

Entretanto, Danubio Lado fez parte da ZHONGMEI Engineering Group, empresa que integra o consórcio com a Union Portlink Capital, que, a 22 de Abril de 2026, assinou um memorando de entendimento com o Ministério dos Transportes e Logística para a construção da estrada de acesso ao Porto da Beira e do Terminal Logístico de Dondo.

O memorando foi assinado pelo ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, e pelo empresário chinês Hefeng Dong, em representação do consórcio. O 4Vês Repórter questionou Danubio Lado sobre a existência de uma relação com Hefeng Dong. O entrevistado afirmou não manter qualquer relação com o empresário, embora tenha reconhecido que o conhece.

Questionado sobre as circunstâncias em que o conheceu, Danubio Lado revelou que Hefeng Dong apareceu algumas vezes no seu local de trabalho, na Agência de Promoção de Investimento e Exportações (APIEX), onde terão tido contacto.

“O cidadão Hefeng Dong é um chinês que fazia parte de uma empresa de recursos minerais. Na altura em que estava na APIEX, eles tinham umas minas. Não tenho nenhuma relação com ele. O mesmo apareceu na APIEX”, explicou a fonte.

O nosso jornal quis saber ainda qual é o estado actual da relação entre Danubio Lado e os seus antigos sócios na ZHONGMEI Engineering Group. O entrevistado afirmou manter uma “boa relação” com os mesmos.

A questão ganha relevância pelo facto de os antigos sócios de Danubio Lado manterem ligações empresariais com Hefeng Dong, que aparece a representar oficialmente o consórcio formado por duas empresas envolvidas em adjudicações relacionadas com o corredor da Beira e Dondo.

“Não tenho uma relação profissional com Hefeng Dong. A relação profissional era com a ZHONGMEI, quando eu era sócio. E temos uma boa relação até agora”, confirmou.

A “boa relação” não se limita a Danubio Lado e aos seus antigos sócios. A ligação entre estas entidades surge em vários pontos identificados durante as investigações do nosso jornal. De um lado, Danubio Lado mantém boas relações com antigos sócios da ZHONGMEI, empresa que, por sua vez, tem ligações com Hefeng Dong. Este último é também conhecido por ter estado nas instalações da APIEX, instituição onde Danubio Lado trabalha.

As conexões identificadas não terminam aqui. Estendem-se a várias outras empresas e projectos no Norte, Centro e Sul do país. No percurso da investigação, a ZHONGMEI e o empresário chinês Hefeng Dong surgem recorrentemente como pontos de ligação entre diferentes actores empresariais e profissionais do sector da construção e da indústria extractiva.

Importa destacar que o 4Vês Repórter voltou a encontrar Hefeng Dong associado à TZM RESOURCES, SA, onde aparece como director principal. Trata-se de uma empresa ligada à indústria extractiva na Zambézia, possivelmente relacionada com o sector de actividade da empresa de Hefeng Dong a que Danubio Lado se referiu durante a entrevista.

O 4Vês Repórter cruzou vários dados obtidos durante a investigação e identificou uma recorrência de perfis e currículos de engenheiros civis, gestores ambientais (HSE) e especialistas em salvaguardas sociais moçambicanos que transitam entre a Anhui Foreign Economic Construction Co., Ltd. (AFECC) e a ZHONGMEI em diferentes períodos e projectos. Estas movimentações profissionais surgem associadas a adjudicações em diferentes províncias, incluindo Cabo Delgado, Sofala e Maputo, acompanhando a presença das empresas em determinados projectos.

Importa destacar que a Anhui Foreign Economic Construction Co., Ltd. (AFECC) está a realizar actividades no Município de Maputo, no âmbito do projecto de construção de vias de acesso ao aterro sanitário da KaTembe, integrado no Projecto de Transformação Urbana de Maputo (PTUM). O projecto é supervisionado por Danubio Lado, que ocupa o cargo de director do GDEI no Conselho Municipal de Maputo.

Para este contrato a AFECC apresentou uma proposta no valor de 501,36 milhões de meticais, com um prazo de execução de 12 meses. O concurso público, com a referência MZ-CMM-374294-CW-RFB, corresponde ao projecto de construção e pavimentação de nove quilómetros de estrada com materiais betuminosos de acesso ao aterro sanitário da KaTembe, na cidade de Maputo. A contratação foi realizada pelo Conselho Municipal de Maputo (CMM), no âmbito do Projecto de Transformação Urbana de Maputo, contando com o co-financiamento do Banco Mundial, através da subvenção IDA D7490 MZ.

Danubio Lado rejeitou responsabilidades relativamente às possíveis actividades de outras empresas e profissionais identificados pelo 4Vês Repórter em conexão com as obras da KaTembe. Afirmou não dispor de informação suficiente para comentar as suas possíveis operações e sublinhou que a sua ligação empresarial se limitava à sociedade da qual fez parte, não mantendo relações profissionais com as restantes empresas mencionadas. O responsável reconheceu a AFECC como a única empresa adjudicatária do projecto da KaTembe e afirmou que o município não tinha recebido informação sobre eventuais subcontratações.

“Não sei nada disso. Se acontece isso, é uma decisão da própria empresa, não interferimos. Nós adjudicámos à empresa Anhui Foreign Economic Construction Co., Ltd. (AFECC). Se ela está a trabalhar com outras empresas, não tenho informação. Para aquele trabalho, se houver outra empresa envolvida, a vencedora tem de submeter uma informação de subcontratação. E nós não recebemos nenhuma dessa informação”, disse Danubio Lado.

Perfis profissionais ligados às empresas envolvidas nas obras da KaTembe

No cruzamento de dados e informações, o 4Vês Repórter identificou o percurso de um engenheiro ambiental moçambicano que passou pelas duas empresas e esteve envolvido em dois grandes projectos rodoviários no país, entre 2025 e 2026.

A cronologia das suas movimentações profissionais divide-se em duas etapas. Entre Março de 2025 e Janeiro de 2026, trabalhou na ZHONGMEI Engineering Group, em Mueda, na província de Cabo Delgado, como responsável de Saúde, Segurança e Ambiente (HSE) e de salvaguardas sociais no projecto de construção e reabilitação de 59 quilómetros da estrada Mueda–Nambungale. Entre as suas principais funções estava a garantia do cumprimento das normas ambientais e sociais exigidas pelo Banco Africano de Desenvolvimento (BAD).

Em Fevereiro de 2026, transferiu-se para Maputo, onde integrou as obras de construção dos nove quilómetros de estrada de acesso ao aterro sanitário da KaTembe, adjudicadas à AFECC, no âmbito do Projecto de Transformação Urbana de Maputo. Iniciou funções como especialista ambiental e social e, em Maio de 2026, ascendeu ao cargo de HSE Manager. Actualmente, lidera as actividades de segurança no estaleiro, sob as directrizes do Banco Mundial, acumulando nove meses na empresa até Outubro de 2026.

O 4Vês Repórter identificou ainda ligações profissionais envolvendo outro especialista que ocupou recentemente posições de relevo na gestão social e de segurança em dois grandes projectos de infra-estruturas rodoviárias no país, ao serviço das empresas chinesas Anhui Foreign Economic Construction Co., Ltd. e ZHONGMEI Engineering Group (Pty) Ltd.

Na AFECC, entre Fevereiro e Junho de 2026, este profissional coordenou actividades relacionadas com os impactos sociais da construção dos nove quilómetros de estrada de acesso ao aterro sanitário da cidade de Maputo, na KaTembe. Desempenhou funções de consultor para a mitigação da Violência Baseada no Género (GBV/SEA/SH) e, posteriormente, de especialista de interligação comunitária, assegurando o cumprimento das normas socioambientais do Banco Mundial e a gestão dos canais de reclamação e dos processos de reassentamento das populações locais.

Antes disso, entre Setembro de 2024 e Abril de 2025, o mesmo profissional exerceu funções de técnico de segurança (Safety Officer) na ZHONGMEI Engineering Group, na província de Cabo Delgado. Foi responsável pela fiscalização ambiental e pela implementação de políticas de Saúde e Segurança no Trabalho (HST) nas obras de reabilitação e modernização de 59 quilómetros da estrada R1251, no troço que liga Mueda a Nambungale.

NTAIMO

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