INVESTIGAÇÃO | MINERAÇÃO, CONSTRUÇÃO E LOGÍSTICA: AS LIGAÇÕES EMPRESARIAIS CHINESAS EM MOÇAMBIQUE
O 4Vês Repórter continua a seguir cada ponta solta em torno das adjudicações de concursos a empresas chinesas para projectos ligados à fronteira de Machipanda e aos corredores da Beira e de Dondo. À medida que a investigação avança, surgem conexões entre empresas que operam em sectores estratégicos da economia moçambicana, desde a construção de estradas e infra-estruturas logísticas até à exploração de recursos minerais.
Quatro empresas reaparecem nas diferentes linhas desta investigação: Anhui Foreign Economic Construction Co., Ltd (AFECC), ZHONGMEI Engineering Group, Union Portlink Capital, Lda., e Jinan Yuxiao Group. Entre três destas empresas, a investigação identificou um nome recorrente: Hefeng Dong, empresário de origem chinesa associado a operações nos sectores da mineração, construção e logística em Moçambique.
É como desenhar círculos num mapa e perceber, a cada novo traço, que linhas aparentemente independentes acabam por convergir. O nome de Hefeng Dong surge em diferentes contextos empresariais, desde a exploração mineira na província da Zambézia até aos projectos logísticos em Sofala e a empreendimentos ligados à construção na cidade de Maputo.
Hefeng Dong: da mineração à concessão do Terminal Logístico de Dondo
Uma das aparições mais recentes de Hefeng Dong identificadas pelo 4Vês Repórter está relacionada com a representação do consórcio privado envolvido na concessão do Terminal Logístico de Dondo (TLD), na província de Sofala.
Em meados de Julho de 2026, o empresário esteve associado à representação do consórcio durante a formalização do contrato de concessão do terminal, num acto que envolveu o Ministério dos Transportes e Logística (MTL), dirigido por João Matlombe. A parceria foi anunciada com um investimento de 117 milhões de dólares e um período de concessão de 25 anos, a ser implementado pela sociedade Terminal Logístico de Dondo, S.A.

De acordo com os elementos reunidos pela investigação, o consórcio integra a Union Portlink Capital, Lda., a ZHONGMEI Engineering Group e outras entidades empresariais identificadas nos documentos relativos ao projecto. A concessão insere-se nos esforços de dinamização do Corredor da Beira e está relacionada com projectos de infra-estruturas logísticas, incluindo intervenções associadas ao acesso ao Porto da Beira e ao Terminal Logístico de Dondo.
A presença de Hefeng Dong neste projecto ganha particular relevância quando confrontada com outras referências ao seu nome em operações empresariais no país. A investigação procura perceber até que ponto as relações identificadas entre empresas, representantes e administradores correspondem a estruturas societárias comuns, parcerias comerciais ou interesses empresariais convergentes.
“Nós, como Governo, vamos apoiar para que todo o processo de implementação e de execução da obra aconteça sem sobressaltos e todos os obstáculos que nós fomos encontrando durante a execução. Estaremos convosco, também, para poder apoiar a fim de garantir o cumprimento dos prazos. Queremos projectos que iniciem e terminem.Queremos que durante os próximos 15 meses, até por aí, Agosto ou Setembro do próximo ano, a gente possa, pelo menos, ter o Porto Seco de Dondo já a funcionar como forma de aliviar a pressão no Corredor da Beira. Essa é a nossa expectativa”, disse na ocasião o Ministro dos Transportes e Logística.
Jinan Yuxiao Group: das areias pesadas à construção
Antes de surgir associado aos projectos logísticos de Sofala, Hefeng Dong esteve ligado a operações de mineração na província da Zambézia, através do grupo empresarial chinês Jinan Yuxiao Group.
A empresa está associada à exploração de areias pesadas e de minerais como ilmenite, zircónio e outros produtos minerais utilizados em diferentes cadeias industriais. As suas actividades em Moçambique estão relacionadas com concessões e operações mineiras em distritos da Zambézia, incluindo Chinde, Pebane, Inhassunge e Nicoadala.
Em 2022, Hefeng Dong esteve envolvido em iniciativas relacionadas com as operações mineiras e com as negociações entre a empresa e o Governo provincial. Entre as acções de responsabilidade social associadas à actividade mineira foi anunciado um plano de construção de mais de 300 habitações para o reassentamento de famílias afectadas pela exploração de areias pesadas.
Para viabilizar a exportação dos minérios que extrai, o grupo actua no desenvolvimento de infraestruturas logísticas dedicadas. Tem operações de transferência de carga do tipo barcaça-navio (essenciais para escoar minério a partir de portos com águas pouco profundas), Transporte e agenciamento de carga internacional (freight forwarding).
Hefeng Dong é também identificado como um dos administradores estruturais recorrentes em múltiplos negócios chineses no país. O seu nome surge associado de forma repetida e cruzada a outros diretores (como Juyi Li e Li Zhou) em actos societários e escrituras públicas de aumento de capital. Além de Sofala (Dondo) e Zambézia (Chinde), as investigações associam o grupo de gestão a que pertence a reestruturações de capital e novos modelos de exploração de recursos ou turismo em áreas como Vilankulo, na província de Inhambane.
Com a expansão das suas operações, os interesses empresariais associados ao grupo passaram igualmente a abranger actividades de construção e o fornecimento de materiais, incluindo a produção de betão. É neste contexto que surge o empreendimento do Complexo Comercial de Turismo Internacional Yuxiao, na cidade de Maputo, associado à sociedade Brisa e Sol, Limitada, identificada como subsidiária da Jinan Yuxiao Group.
A expansão das actividades ligadas ao Jinan Yuxiao Group para a construção colocou-o também no centro de uma controvérsia relacionada com a instalação de uma central de produção de betão na zona da Costa do Sol, na cidade de Maputo.
Em Dezembro de 2023, foram atribuídos pelo Conselho Municipal de Maputo o Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT) e a licença de construção associados ao projecto. O empreendimento foi apresentado como parte dos preparativos para a construção e operação do Complexo Comercial de Turismo Internacional Yuxiao.
Contudo, a instalação da central levantou questões relacionadas com o cumprimento das regras de avaliação do impacto ambiental e com os procedimentos administrativos aplicáveis ao projecto. O caso chegou ao Tribunal Judicial da Cidade de Maputo, que, segundo os documentos a confirmar pela investigação, emitiu uma ordem de embargo destinada a paralisar as obras.
Em Moçambique, o Jinan Yuxiao Group está associado a várias sociedades, entre as quais Africa Yuxiao Mining Development, Mozambique Heavysand Mining Processing, TZM Resources e Africa Great Wall Mining.
A actividade mineira na Zambézia tem sido acompanhada por preocupações relacionadas com os direitos das comunidades afectadas pela exploração de recursos naturais. A Comissão Nacional dos Direitos Humanos de Moçambique denunciou anteriormente alegadas violações do direito à informação e desrespeito pela vida humana relacionadas com a actividade da Africa Great Wall Mining, empresa que explora areias pesadas naquela província.
Além da exploração mineral, os projectos de responsabilidade social associados às operações do grupo incluem iniciativas de reassentamento, electrificação rural, melhoria de estradas e atribuição de bolsas de estudo. A dimensão e os resultados concretos destas iniciativas devem ser avaliados à luz dos compromissos contratuais e dos relatórios de execução disponíveis.
AFECC: da reabilitação da EN6 às areias pesadas de Chibuto
Outra empresa que surgiu nas linhas de investigação do 4Vês Repórter é a Anhui Foreign Economic Construction (Group) Co., Ltd. A empresa esteve envolvida nas obras de reabilitação e modernização da Estrada Nacional Número 6 (EN6), que liga a cidade da Beira à fronteira de Machipanda, na província de Manica, permitindo a ligação rodoviária ao Zimbabué.

Com aproximadamente 287 quilómetros, a EN6 constitui uma infra-estrutura fundamental para o transporte de mercadorias e para o funcionamento do Corredor da Beira. As obras de reabilitação e ampliação tiveram início em Abril de 2015, tendo a estrada sido oficialmente inaugurada em 2019, segundo informações divulgadas na época.
A presença da AFECC neste corredor ganha relevância no âmbito da actual investigação sobre as empresas envolvidas em projectos ligados à fronteira de Machipanda. A coincidência geográfica, por si só, não comprova uma ligação societária ou contratual entre a AFECC, a Union Portlink Capital e a ZHONGMEI. Contudo, justifica aprofundar a análise dos contratos, dos concursos e das relações empresariais que envolvem as infra-estruturas estratégicas do corredor.
As conexões que envolvem a AFECC não se limitam à região Centro. Em 2014, o Governo moçambicano e as empresas chinesas Anhui Foreign Economic Construction (Group) Co., Ltd. e Yunnan Xinli Non-Ferrous Metals Co., Ltd. assinaram um contrato relacionado com a exploração de areias pesadas em Chibuto, na província de Gaza.
Na altura, foi anunciado que as empresas pretendiam investir mais de 471 milhões de dólares no projecto, com uma previsão de extracção próxima de um milhão de toneladas anuais de ilmenite durante um período de 25 anos.
O minério deveria ser transportado por via terrestre até ao Porto de Maputo, de onde seguiria para a China para processamento. Entretanto, segundo informações recolhidas pelo 4Vês Repórter, a operação mineira passou a estar associada à Dingcheng Minerais, S.A., também de capitais chineses.
Os custos do transporte terrestre constituem um dos desafios logísticos deste tipo de exploração. Nesse contexto, foi equacionado o desenvolvimento de uma infra-estrutura portuária no distrito de Chongoene, igualmente na província de Gaza, para facilitar o escoamento dos minerais. A evolução e o estado actual deste projecto deverão ser confirmados através de documentação oficial.
Já a ZHONGMEI Engineering Group é outra empresa que reaparece em diferentes projectos de construção e reabilitação de infra-estruturas rodoviárias em Moçambique. Em 2026, a delegação da Administração Nacional de Estradas (ANE) na província de Gaza adjudicou à empresa uma empreitada de reparação de emergência avaliada em mais de 119,9 milhões de meticais.

A intervenção abrange troços rodoviários considerados relevantes para a circulação de pessoas e mercadorias, incluindo a N221, entre Chinhacanine e Mabalane, a R448, entre Chókwè e Macarretane, e a R856, entre Chókwè e Guijá.
Em Abril de 2017, Documentos de engenharia e planeamento rodoviário associam a empresa a estudos e trabalhos de manutenção que ligam a rede regional de estradas de Chissano a Chibuto (e cruzamentos com a N1/N220).
Do Corredor da Beira à fronteira de Machipanda, passando pelas areias pesadas de Chibuto e Chinde e pelos projectos de construção na cidade de Maputo, a presença destas empresas demonstra a dimensão e a diversidade dos investimentos chineses em sectores estratégicos da economia moçambicana.
A investigação prossegue para esclarecer se as conexões identificadas correspondem a relações societárias directas, parcerias comerciais ou interesses empresariais convergentes, bem como para determinar o papel desempenhado pelas entidades públicas nos diferentes processos. Porque, quando as mesmas empresas e os mesmos nomes reaparecem em projectos distintos, a pergunta que se impõe não é necessariamente a existência de irregularidades, mas quem está por detrás dos negócios, como foram construídas estas relações e se todos os procedimentos obedeceram às mesmas regras.
NTAIMO





