Sociedade

Detido por alegadas ofensas à Primeira-Dama denuncia tortura e questiona provas da acusação

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Um empresário de 30 anos, identificado como Nelson Bernardo Alfredo, detido na província da Zambézia por alegado envolvimento na publicação de conteúdos considerados ofensivos à Primeira-Dama da República, denuncia ter sido torturado durante a investigação. O empresário afirma estar a ser responsabilizado por uma página do Facebook que, segundo a sua versão, não criou nem administrava.

Numa carta manuscrita, datada de 9 de Julho de 2026, dirigida à Primeira-Dama e enviada ao 4Vês Repórter a partir do Estabelecimento Penitenciário Provincial da Zambézia, Nelson nega as acusações e sustenta que a sua ligação à página resultou de um serviço de promoção comercial contratado por intermédio de terceiros.

Atraído com uma promessa de recuperação de bens roubados

Segundo o relato de Nelson, a detenção ocorreu a 27 de Março de 2026, depois de ter sido contactado por um responsável do Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), que lhe terá comunicado que alguns bens roubados da sua empresa em anos anteriores tinham sido localizados.

“Disse [que] vimos seus bens que foram roubados no ano antepassado [e] estão numa localidade. Agora vieram colegas de Quelimane para irem juntos consigo, que conhece os seus bens”, relata o empresário na carta.

Nelson afirma ter aceitado acompanhar os agentes, acreditando que iria recuperar os seus bens. Contudo, depois de percorrerem aproximadamente 30 quilómetros, terá sido questionado sobre a existência de um posto policial nas proximidades.

“Chegámos no posto, um entrou dentro do comando e voltou com algemas e disse, estás preso”, escreve.

De acordo com o seu testemunho, foi então informado de que era suspeito de ser proprietário de uma página do Facebook denominada “Verdades Espalhadas 7 Life”, que, segundo as autoridades, estaria relacionada com as publicações sob investigação. “Eu respondi que pagina não é minha”, afirma.

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Carta de Nelson do dia 09 de Julho de 2026

O empresário relata ainda que foi conduzido na direcção de Gurué, onde terá sido interrogado sobre a criação e a gestão da página. Durante o percurso, diz ter encontrado outra viatura com três homens armados e cães, tendo sido entregue a estes pelos agentes que o transportavam.

Nelson sustenta que explicou às autoridades que nunca criou a página em causa e que a sua actividade nas redes sociais estava relacionada com a promoção comercial da sua empresa.

Empresário diz que contratou serviços de criação de páginas comerciais

Na carta, Nelson explica que conheceu um indivíduo identificado como Carlitos na sua loja, onde este costumava efectuar compras. Segundo o empresário, foi através dele que conheceu Hélder, apresentado como alguém que disponibilizava um sistema informático de vendas e controlo de stock.

Depois de adquirir e instalar o sistema nos computadores da empresa, Nelson afirma que manteve contacto com Hélder para resolver dificuldades técnicas. Posteriormente, solicitou-lhe a criação de páginas empresariais nas plataformas digitais.

“No mês de Fevereiro consultei o senhor Hélder se soubesse abrir uma página empresarial, Gmail, Facebook e TikTok. Ele disse sim, sei. São 4.000 meticais para ele poder criar”, relata.

Segundo o empresário, em Março pagou antecipadamente 50% do valor acordado para a criação das plataformas, que deveriam servir para divulgar os produtos e serviços da sua empresa, denominada Nelson Multi-Serviço, SU, Lda.

Entretanto, depois de as páginas terem sido criadas, Hélder terá sugerido a contratação de uma empresa para aumentar o número de seguidores e reforçar a presença digital do negócio.

Nelson afirma que pretendia reunir-se primeiro com a empresa para conhecer os procedimentos e os custos do serviço. Contudo, dois dias depois, começou a receber notificações de publicações patrocinadas relacionadas com a página da sua empresa.

Segundo o empresário, as publicações eram feitas pela página “Verdades Espalhadas 7 Life”, que mencionava a sua página empresarial sem o seu consentimento.

“Eu só a receber notificação no Facebook. Liguei para o senhor Hélder e lhe informei que estou a ver minha página a receber notificação, quem promoveu. Ele disse-me que esqueci-me de te explicar”, relata.

O empresário diz ter contestado a situação por considerar que as publicações não correspondiam aos objectivos comerciais que tinha definido. Segundo o seu testemunho, tinha enviado vídeos, imagens e informações sobre os produtos e serviços da empresa, mas os conteúdos divulgados não reflectiam essas orientações.

Nelson afirma que pediu a interrupção das publicações e que Hélder lhe terá explicado que a empresa contratada não pretendia suspender o serviço por existir um contrato de uma semana, do qual o empresário diz não ter tido conhecimento. “Esse contrato não tenho conhecimento”, terá respondido, segundo a carta.

O empresário alega que, mesmo depois de ter manifestado a sua oposição, a sua empresa continuou a ser mencionada nas publicações. Segundo Nelson, Hélder informou-lhe posteriormente que a pessoa responsável pela promoção exigia 500 meticais para interromper o serviço, alegadamente por se tratar do cancelamento de um contrato. “Eu pedi para parar a publicação porque não está a publicar isso que a empresa quer”, escreve.

Nelson afirma que, receando consequências para a sua família, para o negócio e para a sua própria imagem, pediu dinheiro emprestado e transferiu os 500 meticais solicitados.

“Eu dei a segurança da minha família, minha empresa e minha própria imagem”, relata, referindo-se à decisão de pagar o valor.

Segundo o empresário, as referências à sua empresa nas publicações terão cessado depois do pagamento.

Contrato confirma contratação de serviços digitais

O 4Vês Repórter teve acesso a uma declaração de entrega de serviços digitais contratados pela empresa Nelson Mult Service ao prestador Hélder Fonseca, cujo documento indica que a conclusão e a entrega formal dos serviços foram declaradas a 5 de Março de 2026.

Segundo o documento, metade do valor acordado já tinha sido paga antecipadamente, ficando os restantes 50% por liquidar no acto da entrega.

De acordo com a declaração, os serviços incluíram a criação e a configuração de um endereço de correio electrónico profissional, a abertura e a optimização de uma conta empresarial no TikTok, a personalização da página oficial da empresa no Facebook e a criação de um website institucional.

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Contranto entre a empresa de Nelson e Helder

O documento indica que os serviços foram considerados concluídos e aptos para utilização imediata. Entretanto, a pesquisa e a selecção de influenciadores locais e figuras públicas para reforçar a presença digital da marca ainda se encontravam em curso.

A declaração estabelece igualmente que as actualizações, melhorias e personalizações das plataformas seriam realizadas de forma contínua, sempre que necessário.

O empresário, proprietário de uma empresa de prestação de serviços e venda de material escolar, acessórios de instalação e material de construção, afirma que a sua intenção era promover os produtos e serviços do negócio nas redes sociais, e não produzir ou divulgar conteúdos ofensivos.

“Mandar criar uma página comercial é crime?”, questiona Nelson, que pede transparência no processo e exige que as autoridades apresentem provas concretas que sustentem a sua detenção.

“Bateram-nos durante toda a noite”, denuncia

A parte mais grave do testemunho diz respeito às alegadas torturas sofridas durante a detenção e os interrogatórios.

Nelson afirma que, depois de ter sido levado para Gurué, foi submetido a horas de investigação, durante as quais as autoridades lhe solicitaram os números de telefone de pessoas com quem mantinha contacto, incluindo Carlitos e Hélder.

O empresário relata que permaneceu cerca de cinco horas sob investigação em Gurué e que chegou à Penitenciária de Quelimane por volta das 21 horas.

Afirma ainda que, no dia 28 de Março, foi novamente retirado do estabelecimento penitenciário e conduzido ao quartel de Nicoadala, onde teria sido submetido a agressões físicas.

“Bateram-me toda a noite até não conseguir [suportar]”, denuncia.

Na carta, Nelson descreve alegadas agressões contra si e outros detidos, que, segundo ele, eram mantidos algemados e obrigados a permanecer em posições dolorosas.

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“Bateram-nos todos algemados”, escreve, acrescentando que os detidos eram obrigados a satisfazer as suas necessidades fisiológicas sem poderem levantar-se. Afirma ainda que lhes colocavam panos sujos na boca para impedir que gritassem.

O empresário sustenta que os episódios de violência se repetiram em diferentes ocasiões, incluindo durante uma deslocação a Nicoadala, e que os detidos passaram vários dias sem acesso directo às respectivas famílias.

Segundo Nelson, o contacto com os familiares só começou a ser permitido posteriormente, inicialmente através de cartas.

“Ficámos uma semana sem conseguirmos sentar”, relata, acrescentando que permaneceram cerca de dez dias sem contacto com os familiares.

Alega ter sido obrigado a gravar um vídeo

Nelson afirma igualmente que, durante o período de detenção, foi obrigado a gravar um vídeo no qual deveria declarar que era patrocinador das páginas em causa e que recebia dinheiro de outras pessoas.

Segundo o empresário, a gravação teria sido feita sob ameaça de continuidade das agressões caso os detidos se recusassem a cumprir as instruções.

“Quem não gravasse não podiam deixar de lhe bater”, escreve na carta.

O empresário considera que as declarações que lhe terão sido impostas não correspondem à realidade e sustenta que a sua actividade consistia em promover os produtos e serviços da sua empresa.

Detido e sem acesso ao processo

Na carta, Nelson afirma que, à data em que escreveu o documento, se encontrava detido há 107 dias, sem que, segundo a sua versão, lhe tivesse sido apresentada uma explicação satisfatória para a manutenção da sua privação de liberdade.

O empresário queixa-se ainda de dificuldades no acesso ao processo por parte dos seus advogados.

“Os nossos advogados não têm acesso ao nosso processo”, afirma, acrescentando que alguns profissionais terão alegado não conseguir consultar os autos e que um dos seus advogados lhe terá comunicado ter sofrido ameaças, acabando por desistir do caso.

Nelson afirma também ter permanecido cerca de 75 dias numa cela fechada, sem sair para o exterior, situação que, segundo ele, contribuiu para a deterioração do seu estado de saúde.

“Por causa das torturas fiquei 25 dias doente”, escreve, referindo dores abdominais, tensão arterial e dores generalizadas no corpo.

O empresário manifesta ainda preocupação com outros dois jovens que, segundo a carta, permaneciam detidos na mesma cela e sujeitos a um processo que considera semelhante ao seu.

“Até hoje temos dois jovens com o mesmo processo, que estão na mesma cela, sem saírem de lá. O que me preocupa”, afirma.

Pede desculpas à Primeira-Dama e exige justiça

Apesar de negar ter criado ou administrado a página em causa, Nelson apresenta, no final da carta, um pedido de desculpas à Primeira-Dama da República e à população moçambicana pelos conteúdos que terão sido divulgados através da página que, segundo ele, foi promovida no âmbito da actividade comercial da sua empresa.

“Em primeiro lugar, peço as minhas sinceras desculpas à Primeira-Dama da República, segundo ao povo moçambicano”, escreve.

O empresário insiste que o objectivo das plataformas digitais da sua empresa era exclusivamente comercial e que não pretendia desinformar a população nem ofender qualquer figura pública.

“A minha página [tem como] objectivo não é desinformar as pessoas, mas sim promover os meus produtos e serviços da empresa”, afirma.

Na mesma carta, sustenta que já apresentou as suas explicações e disponibilizou os seus telefones às autoridades para que fossem recolhidos elementos capazes de esclarecer a sua alegada ligação à página investigada.

“Peço que haja justiça neste caso e transparência”, conclui.

Página continua activa e questiona informações do SERNIC

Uma das principais questões constatadas pelo 4Vês Repórter é a continuidade da actividade da página “Verdades Espalhadas 7 Life”, apesar da detenção de Nelson.

O jornal encontrou publicações na referida página que ironizam as autoridades, acusando-as de prender pessoas erradas para demonstrar um trabalho que, segundo os autores das publicações, não existe.

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Em Julho, meses após a detenção de Nelson e de outros suspeitos, o porta-voz do SERNIC na Zambézia, Domingos Álvaro, pronunciou-se publicamente, afirmando que os detidos eram apontados como responsáveis pela página “Verdades Espalhadas 7 Lifes”, que, segundo as investigações, teria sido criada no distrito de Molumbo.

No mesmo dia, a página “Verdades Espalhadas 7 Lifes” reagiu ao pronunciamento, afirmando que os seus gestores não estavam detidos e questionando as informações divulgadas pelo SERNIC.

“Estão a prender jovens inocentes vocês”, reagiu a página, que continua activa e a publicar conteúdos relacionados com o caso.

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Importa destacar que o pronunciamento do SERNIC ocorreu depois de mais de cem dias de detenção, na sequência de uma carta enviada pelo director do 4Vês Repórter ao Gabinete da Primeira-Dama, a 13 de Julho.

Na sua reacção, o SERNIC afirmou que as detenções resultavam de uma operação conjunta com as Forças de Defesa e Segurança, no âmbito de uma investigação sobre alegados crimes de incitamento à desobediência colectiva, injúria, difamação e ataques contra órgãos de soberania do Estado.

Durante os interrogatórios, segundo informações recolhidas pela imprensa, um dos suspeitos, identificado como Hélder, afirmou ter sido contratado para promover uma página empresarial e ter recorrido aos serviços de outra empresa, alegadamente responsável pela produção e publicação dos conteúdos sob investigação.

NTAIMO

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