- Comunidade vive sem energia eléctrica apesar de promessas feitas desde 2024 e questiona rapidez com que a EDM electrificou empreendimento privado enquanto centenas de famílias continuam dependentes de painéis solares da empresa MySol que cobra 35 mil a 50 mil Meticais pelo contrato com TV e Geleira. Moradores denunciam ainda alegadas barreiras na cobertura mediática do caso relacionado com a EDM.
A insatisfação cresce entre os moradores da zona de Pateque, no Distrito da Manhiça – província de Maputo, que acusam a Electricidade de Moçambique (EDM) de incumprir sucessivas promessas de electrificação feitas desde 2024. A comunidade denuncia atrasos injustificados na execução do projecto, falta de esclarecimentos consistentes por parte da empresa e aquilo que considera ser um tratamento desigual na distribuição de infra-estruturas eléctricas.
Segundo relatos dos residentes, a EDM garantiu, através de despachos e comunicações oficiais, que a zona passaria a beneficiar de energia eléctrica ainda em 2024. No entanto, mais de um ano depois, os moradores afirmam que continuam sem acesso à rede nacional de energia, dependendo exclusivamente de painéis solares para iluminação e para a realização das actividades domésticas básicas.
“Disseram-nos que 2024 não terminaria sem termos corrente eléctrica. Estamos em 2026 e continuamos sem um único posto de transformação na nossa zona”, lamentou um morador que falou em representação da comunidade.
Os residentes afirmam que, ao longo dos últimos meses, receberam várias justificações por parte da EDM, desde alegada falta de material até limitações financeiras. Contudo, consideram que as explicações perderam credibilidade perante aquilo que observam no terreno.

A principal revolta da população está relacionada com a instalação recente de infra-estruturas eléctricas num terreno privado destinado à construção de uma escola particular. Segundo os moradores, a EDM terá instalado um posto de transformação e efectuado ligações eléctricas para o empreendimento em poucos dias, apesar de alegar falta de meios para responder às necessidades da comunidade.
“Os cabos passam mesmo em frente das nossas casas para alimentar aquele projecto privado. Em menos de uma semana fizeram o trabalho todo. Como é possível dizerem que não há material quando acabaram de concluir uma obra daquela dimensão?”, questiona um dos residentes.
Para os moradores, o episódio demonstra que o problema não está necessariamente na disponibilidade de equipamentos ou recursos, mas sim na definição das prioridades da empresa. A percepção instalada entre a população é a de que interesses privados estariam a receber tratamento preferencial em detrimento das necessidades colectivas de centenas de famílias.
Visita do director não convenceu a comunidade
A tensão aumentou depois de uma recente visita de um director da EDM à zona. Os moradores esperavam obter respostas concretas sobre o calendário de electrificação e o estado do projecto, mas saíram do encontro mais frustrados do que antes. De acordo com os relatos, o responsável limitou-se a anunciar que uma parte da área poderá beneficiar de energia dentro de três meses, enquanto outra parcela deverá aguardar até ao próximo ano, sem indicação de datas, metas ou garantias de execução.
“Pensámos que vinha trazer soluções. Em vez disso, veio apenas repetir promessas. Falou de três meses para uma zona e de próximo ano para outra, mas sem datas concretas. São promessas iguais às que ouvimos desde 2024”, criticou o representante da comunidade.

Os residentes afirmam que a ausência de prazos claros e de informação detalhada reforça a desconfiança em relação ao compromisso da empresa com o projecto. Outro aspecto que alimenta o descontentamento popular é a alegada contradição nas justificações apresentadas pela EDM ao longo do processo.
Segundo os moradores, em alguns momentos a empresa afirmou que os atrasos resultavam da falta de material. Noutras ocasiões, responsáveis terão explicado que o projecto dependia de fundos provenientes de parceiros internacionais e programas de apoio financiados por instituições externas.
“Já nos disseram que não há material. Depois disseram que o dinheiro vem de parceiros internacionais e de financiamentos externos. As explicações mudam constantemente e ninguém esclarece o que realmente está a acontecer”, afirmou um residente.
Para a comunidade, a falta de informação transparente tem contribuído para aprofundar o sentimento de abandono e de descrédito em relação às promessas da empresa pública.
Alegações de bloqueio mediático levantam preocupações
Mas as denúncias dos moradores não se limitam à questão da energia eléctrica. A comunidade acusa também alguns órgãos de comunicação social de ignorarem deliberadamente o problema, apesar de terem sido formalmente convidados a acompanhar uma reunião realizada recentemente com representantes da EDM.
Segundo os residentes, diversas televisões e outros meios de comunicação foram contactados para cobrir o encontro, mas nenhum compareceu ao local. Mais preocupante, dizem os moradores, foi a informação recebida posteriormente de alguns profissionais da comunicação social. De forma informal, jornalistas teriam revelado que foram impedidos pelos seus superiores de abordar ou cobrir assuntos relacionados com a EDM.
Os moradores suspeitam que a eventual recusa em cobrir o caso possa estar relacionada com relações comerciais entre a EDM e determinados órgãos de comunicação social, incluindo contratos publicitários e parcerias institucionais.
“Disseram-nos que alguns jornalistas queriam vir, mas receberam orientações para não tratar deste assunto. Se isso for verdade, é muito grave. Significa que uma empresa pública pode estar acima do escrutínio público”, afirmou um dos residentes.
Comunidade questiona campanha de sensibilização antes da chegada da energia eléctrica
Moradores desta comunidade ainda sem acesso à energia eléctrica manifestam preocupação com a realização de actividades de sensibilização sobre vandalização da rede eléctrica, numa altura em que o serviço continua por chegar à zona.
Segundo os residentes, a equipa da EDM tem estado a promover palestras sobre a necessidade de proteger infra-estruturas eléctricas e evitar actos de vandalização. No entanto, a população considera que a prioridade deveria ser a conclusão do processo de electrificação da comunidade.
“Estão a falar connosco sobre não vandalizar a energia, quando, na verdade, nós nunca tivemos energia nesta zona. Primeiro queremos que a energia chegue às nossas casas e, só depois, que sejam realizadas acções de sensibilização sobre a sua utilização e conservação”, referiram alguns moradores.
A comunidade afirma não ser contra as iniciativas de segurança e educação cívica. Pelo contrário, defende que, após a instalação da rede eléctrica, sejam promovidas sessões de esclarecimento sobre os cuidados a ter com cabos, postes e outros equipamentos, bem como sobre os riscos da electricidade, sobretudo para as crianças.
NTAIMO




