“Resgate da confiança do povo” — do apelo de Daniel Chapo aos detentos e feridos que continuam à espera.

O Governo, mesmo que não o diga de forma directa, reconhece que já não goza da confiança do povo. Os recentes apelos feitos pelo Presidente Daniel Chapo, bem como pelo Comando-Geral da PRM, são uma confissão pública dessa ruptura. Na Reunião Nacional dos Primeiros Secretários Distritais da FRELIMO, realizada no distrito do Bilene, província de Gaza, Chapo exigiu que os seus quadros “resgatassem” a confiança das populações, beliscada pelos protestos pós-eleitorais que varreram o país. Do mesmo modo, o Comando-Geral da PRM admitiu que a Polícia falhou em vários momentos durante as manifestações, e instou a corporação a trabalhar para reparar a deteriorada relação polícia–comunidade.

É, sem dúvida, um passo importante quando os titulares do poder reconhecem erros. Mas reconhecer não chega. O país está cansado de discursos penitenciais que nunca se traduzem em mudança real. A confiança não se recupera com declarações formais nem com promessas jogadas ao vento. Recupera-se com actos concretos e coerentes. Eu disse ao próprio Presidente Chapo, quando reunimos com ele neste ano para uma conversa com a juventude, que a confiança e a legitimidade das instituições apenas são garantidas pela transparência, pela justiça social e por um compromisso sério no combate às desigualdades e às injustiças que teimam em adoecer o país. Não há resgate possível enquanto se disser uma coisa e praticar outra.

Também é urgente despartidarizar o Estado e as suas iniciativas. Continuar a confundir Governo com partido é minar, desde a raiz, qualquer tentativa de reconstruir confiança. Um exemplo gritante foi o recente lançamento da Campanha Agrária em Boane, onde, no programa do Protocolo do Estado, aparecia destacado o nome do Primeiro Secretário Distrital da FRELIMO, um sinal claro de que, apesar do discurso, as velhas práticas continuam de pé.

A verdade é que a confiança estava esgotada muito antes das eleições. E, diga-se com franqueza, será uma tarefa hercúlea recuperá-la com um Governo saído de um processo eleitoral amplamente contestado, percepcionado como fraudulento e contrário à vontade da maioria que se manifestou nas ruas. É uma missão que, em teoria, pertence “a todos nós”, mas muitos recusam envolver-se para não se tornarem cúmplices de uma narrativa de “resgate” que, na prática, serve para legitimar um Governo que pisca à direita enquanto caminha, firmemente, para a esquerda. Assim, muitos preferem manter distância e preservar a sua reputação, porque não se resgata confiança misturando-se em contradições institucionais.

O Governo precisa mudar de atitude, não nos slogans, mas nos actos. Se quer realmente começar um processo de reconciliação com o povo, deve libertar imediatamente todos os detidos das manifestações. Deve garantir tratamento digno e cuidados de saúde aos feridos por balas da Polícia. E deve responsabilizar criminalmente os agentes que mataram e feriram cidadãos sem qualquer critério ou humanidade. Sem justiça, não haverá confiança possível. Se reconhecem excesso no uso da força policial deve haver responsabilização e libertação de vários inocentes que enchem as cadeias que já estavam cheias.

O Governo deveria perguntar-se “o que tem para nos oferecer em troca da confiança que exige?” Até agora, nada indica que tenha compreendido a gravidade do momento. Continuamos diante de um Governo nascido de eleições manchadas, que não apresentou um único gesto político de mudança, humildade ou arrependimento. Resgatar a confiança não será um favor que o povo fará ao Governo. Será um contrato moral que só pode ser reatado quando os líderes mostrarem, com actos e não apenas palavras, que estão dispostos a mudar. Até lá, continua tudo por fazer.

(NTAIMO)

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