Serviço de “Mensagens pagas” facilita burlas em carteiras Móveis e Bancos

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Um sofisticado esquema de burla digital envolvendo carteiras electrónicas como M-Pesa, E-Mola e serviços bancários digitais tem provocado perdas significativas a comerciantes, agentes de carteira móvel e cidadãos comuns em Moçambique, atingindo inclusive figuras públicas e familiares de autoridades governamentais. Uma investigação do 4Vês Repórter, com base em entrevistas a uma fonte detida na Cadeia de Máxima Segurança em Maputo depois de uma denuncia de comerciante e agente de carteira móvel revela como o golpe opera e evidencia falhas estruturais no sistema financeiro e nas operadoras de telecomunicações.

Segundo a fonte detida, a fraude não é nova, mas evoluiu para um formato altamente tecnológico e quase indetectável. Os burladores utilizam um site pago em dólares, chegando a custar por volta de 900 dólares, que disponibiliza mensagens pré-programadas capazes de simular notificações legítimas de bancos ou operadoras de serviços de carteiras móveis. Cada mensagem enviada faz parecer que uma transação real foi efectuada, criando um saldo “fantasma” que desaparece minutos depois. O método permite escolher qualquer banco ou carteira móvel disponível, ampliando drasticamente o alcance do golpe.

“A fragilidade está na actualização do saldo. Por exemplo, se você coloca 40 mil meticais, o sistema mostra apenas esse valor como saldo actual, sem reflectir o saldo anterior. Se o agente não verificar os movimentos detalhados, ele será enganado. Nos bancos, é ainda mais grave, pois a confirmação da transacção não mostra o saldo actualizado, tornando quase impossível perceber que se trata de burla”, explicou a fonte detida.

O comerciante Ramos Muana Npatcha relatou nas redes sociais um episódio recente que evidencia o funcionamento do esquema fora do ambiente digital. O mesmo contou que por volta das 13h, dois indivíduos em um carro preto, modelo Honda Fit, tentaram levantar um valor à distância, alegando que a pessoa que faria a transferência estava em Chokwe. Eles perguntaram sobre a taxa de levantamento de 15 mil meticais e disseram que pediriam à pessoa para transferir o valor para o número de Ramos. Apesar de receber a mensagem proveniente ou assinada por “E-Mola”, quando tentou levantar pelo menos 7.500 meticais, recebeu a notificação de que o saldo da conta não era suficiente. “Deus me deu sorte. Eles saíram com velocidade enorme. A burla conta com conivência de alguns agentes das operadoras de telefonia móvel”, alertou o comerciante.

Este caso evidencia que o golpe não se limita ao ambiente digital, mas envolve ações coordenadas fora da rede, explorando a confiança de comerciantes e agentes de carteira móvel. A prática tem afectado uma gama ampla de vítimas, desde pequenos comerciantes e cidadãos comuns até figuras ligadas ao poder político e governamental, conforme revelou a fonte detida. O detido afirma que ter informação de que o Presidente da República já abordou publicamente o tema, alertando para o aumento de burlas praticadas a partir de penitenciárias durante uma conferência de imprensa sobre a posse de novos quadros da PRM, FADM e SERNAP.

Tendo revelado que há detentos e pessoas em liberdade a acumular fortunas por meio de fraudes desse tipo, afirmou que “Estão a comprar carros de luxo, a construir casas e a investir em outros empreendimentos, burlando muitas pessoas a partir daqui. E sinto que as autoridades ainda não estão a tomar nenhuma medida efetiva para conter estas atividades.” O detento destacou que, embora o actual Diretor-Geral do Serviço de Investigação Criminal (SERNIC) tenha saído do Serviço Nacional Penitenciário (SERNAP), onde certamente teve conhecimento de casos semelhantes, ainda não se observa qualquer ação visível para enfrentar o problema.

Segundo ele, esperava-se que, com a sua nomeação, houvesse um esforço decisivo para desmantelar essas redes criminosas, que não apenas operam fora das cadeias, mas continuam a funcionar dentro delas, explorando vulnerabilidades do sistema penitenciário e afectando milhares de vítimas.

“São esquemas organizados, que envolvem contactos externos e internos, e o prejuízo social e económico é enorme. A sensação de impunidade é alarmante”, acrescentou.

O detento alerta ainda para a necessidade de maior rigor na fiscalização e na cooperação entre os órgãos de justiça e segurança, de modo a interromper estas operações fraudulentas e restaurar a confiança da população nas instituições.

Segundo o entrevistado do 4Vês Repórter, o esquema evidencia falhas estruturais graves. Os sistemas de confirmação de pagamento não exibem o saldo actualizado, o sistema de telecomunicação, através de serviços de mensagens nas carteiras móveis permitem a criação de saldos fantasmas e não há fiscalização rigorosa sobre transações à distância. A ausência de protocolos de verificação cruzada entre bancos, operadoras e comerciantes facilita que os burladores actuem com rapidez, deixando vítimas sem meios imediatos de contestação. Além disso, há indícios de conivência de alguns agentes das operadoras de telecomunicação, permitindo que o esquema funcione sem detecção imediata, entende a nossa fonte.

 A actuação simultânea dentro e fora das penitenciárias sugere uma organização estruturada, com divisão de tarefas entre quem gera os saldos fantasmas, quem envia mensagens e quem executa acções presenciais, como solicitar levantamentos ou pressionar comerciantes, tornando o golpe mais eficiente e difícil de rastrear. Para evitar o mesmo, recomenda que comerciantes e agentes de carteira móvel consultem sempre o saldo real e verifiquem os movimentos detalhados antes de concluir qualquer transação.

 “Não se deixem levar apenas pela mensagem de confirmação de pagamento, tenham cautela em transações à distância e levantamentos solicitados por terceiros e denunciem qualquer indício de conivência de agentes de operadoras de telecomunicação”, disse a fonte. A adoção de protocolos internos de conferência de valores recebidos antes da entrega de produtos ou serviços é considerada essencial para reduzir os riscos pelo mesmo. 

Tecnologia ao serviço da fraude dominado por detentos

Ainda nesta reportagem ouvimos outro detento que se disponibilizou para ir mais a detalhe sobre o esquema. Foi este segundo que abordou a fundo sobre Plataformas de envio de SMS em massa, originalmente criadas para facilitar a comunicação entre empresas, bancos, operadoras de telecomunicações e clientes que estão a ser transformadas em instrumentos de burla sofisticada que afecta comerciantes, agentes de carteira electrónica e cidadãos comuns em Moçambique.

O 4Vês Repórter confrontava a informação do primeiro detento quando o segundo  confirmou conhecer profundamente o funcionamento destas plataformas e acompanha como alguns detentos as utilizam para praticar burlas, muitas vezes em articulação com cúmplices no exterior.

Segundo a fonte, conhecida pelo jornal por acompanhar de perto a dinâmica destes esquemas, os serviços de envio de SMS em massa, também chamados de “SMS gateways”, são facilmente adquiridos através da internet, mediante pagamento em dólares ou outras moedas estrangeiras.

“Qualquer pessoa entra num site, cria uma conta, paga e tem acesso imediato a dezenas de mensagens que podem ser enviadas para qualquer número. O sistema ainda permite escolher o nome do remetente, que aparece como se fosse o banco ou a carteira móvel. A vítima acredita automaticamente porque vê a notificação ‘oficial’ no telemóvel”, explicou o detento. 

Segundo a fonte, o processo é extremamente simples, o que facilita a sua exploração para fins ilícitos. “Algumas plataformas não exigem sequer verificação rigorosa da identidade do utilizador. Basta pagar pelos créditos e já é possível enviar centenas ou milhares de mensagens. É assim que a burla acontece, mensagens que parecem reais, mas que não correspondem a qualquer transacção efectiva”, afirmou. 

O entrevistado explicou que dentro das cadeias há detentos com conhecimentos técnicos suficientes para operar ou orientar o uso destas plataformas, aproveitando falhas no sistema de autenticação de mensagens SMS.

“O protocolo SMS não tem como confirmar de forma segura quem enviou a mensagem. Se o sistema permite personalizar o remetente, a vítima vê ‘Banco’, ‘M-Pesa’ ou ‘E-Mola’ e acredita. É isso que permite criar saldos fantasmas e induzir comerciantes e agentes a erros”, disse ele.

Segundo o detento, a organização das burlas é estruturada. “Uns tratam da parte técnica, enviando as mensagens, outros fazem contacto com os comerciantes ou agentes, pedindo levantamentos ou transferências, e há ainda quem receba o dinheiro ou coordene a rede de fora da cadeia. É uma operação completa, com divisão de tarefas, quase como uma empresa, mas dedicada à fraude.” 

O risco é agravado pelo comportamento das vítimas. “As pessoas cresceram a confiar que qualquer SMS de banco ou carteira electrónica é verdadeiro. Quando recebem a mensagem, não questionam. Acham que o dinheiro já entrou na conta e entregam produtos ou serviços. É aí que ocorre o prejuízo. Por vezes é muito rápido, e o comerciante só percebe depois que caiu na burla”, relatou.

O detento esclareceu ainda como os saldos fantasmas funcionam na prática. “Quando se envia uma mensagem falsa, aparece no telemóvel do comerciante ou do agente um saldo que não existe. A notificação indica que a transacção foi feita, mas ao conferir o sistema, não há registo real. Se não for feito um controlo detalhado, a pessoa acredita e entrega o valor ou produto. É uma armadilha muito bem feita”, afirmou.

Os detentos em entrevista destacam que o fenómeno evidencia falhas estruturais graves no sistema bancário e nas operadoras e nos serviços de telecomunicações. As mensagens SMS, apesar de amplamente utilizadas, não são cifradas nem autenticadas, o que permite a falsificação do remetente. Além disso, plataformas internacionais de envio em massa operam com pouca fiscalização sobre os utilizadores, permitindo que criminosos adquiram serviços sem limitações.

“Enquanto houver falhas na verificação, na autenticação e na supervisão, estes serviços vão continuar a ser explorados para burlas”, alerta a fonte detida. “É preciso que haja fiscalização séria das operadoras, dos bancos e das entidades reguladoras. Sem isso, a fraude vai crescer e atingir cada vez mais pessoas.”

O impacto deste tipo de burla é abrangente. Para comerciantes e agentes de carteira electrónica, cada transacção falsa representa perda financeira directa. Para cidadãos comuns, a confiança nas carteiras móveis e nos sistemas bancários digitais é gradualmente abalada. A fonte destaca ainda casos de figuras públicas e familiares de autoridades afectadas pelo esquema, demonstrando que ninguém está imune. “É um golpe que não escolhe vítima. Se o comerciante não tiver cuidado, pode perder tudo num instante. Se o agente de carteira móvel confiar apenas na mensagem, o prejuízo é certo”, disse.

A expansão das carteiras móveis em Moçambique, considerada um avanço na inclusão financeira, trouxe novas oportunidades para a economia, mas também abriu espaço para crimes sofisticados. Segundo a fonte, sem controlo rigoroso e educação financeira da população, ferramentas concebidas para facilitar a vida dos cidadãos podem transformar-se em instrumentos de fraude organizada.

O caso evidencia que tecnologias aparentemente simples, como o SMS, podem ser transformadas em instrumentos de crime sofisticado, explorando falhas do sistema e a confiança dos cidadãos. O 4Vês Repórter continuará acompanhando o caso, ouvindo vítimas, autoridades e especialistas, e cobrando respostas das instituições financeiras e operadoras de telecomunicação para conter uma fraude que se tornou sofisticada, sistemática e prejudicial, expondo falhas estruturais no sistema financeiro digital e ameaçando a segurança econômica de agentes de carteira eletrónica, comerciantes e cidadãos moçambicanos.

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