Após um prolongado período sem actualizações públicas, a Procuradoria-Geral da República (PGR) voltou a prestar esclarecimentos sobre o assassinato de Elvino Dias, advogado ligado ao partido PODEMOS, num caso que permanece envolto em elevada complexidade e forte impacto político e social.
O Procurador-Geral da República, Américo Letela, afirmou que as investigações em curso estão a seguir linhas paralelas, numa tentativa de apurar, com maior rigor, as circunstâncias e motivações do crime. Entre os novos elementos apresentados, destaca-se o enquadramento da vítima num processo-crime distinto, que poderá constituir uma das chaves para a compreensão do homicídio.
De acordo com a PGR, Elvino Dias desempenhava funções de mandatário num processo envolvendo Edite Chilindro, alegadamente companheira de Nini Satar, indivíduo associado a um dos casos criminais mais marcantes da história recente do país, o assassinato do jornalista Carlos Cardoso. Neste processo, Edite Chilindro é acusada de falsificação de documentos, nomeadamente uma certidão de óbito, com o objectivo de simular a sua própria morte e, desse modo, escapar à acção da justiça num outro caso em que é igualmente visada.
As autoridades indicam que foram utilizados documentos supostamente emitidos por unidades hospitalares da África do Sul para sustentar a alegada morte. Contudo, diligências investigativas, incluindo troca de correspondência oficial com instituições sul-africanas, permitiram apurar que tais documentos são falsos, não existindo qualquer registo de óbito em nome da arguida, nem confirmação do local onde teria sido enterrada.
Na sequência dessas descobertas, foi instaurado um processo-crime para responsabilização dos envolvidos na falsificação. O julgamento deste caso encontrava-se marcado para o dia 20 de Outubro de 2024, sendo que o assassinato de Elvino Dias ocorreu no dia seguinte, facto que, segundo a PGR, poderá ter relevância directa ou indirecta no apuramento dos motivos do crime.
Apesar do destaque dado a esta linha investigativa, a Procuradoria-Geral da República sublinha que não está descartada a hipótese de motivações políticas. A morte de Elvino Dias ocorreu num contexto de elevada tensão social e política, na sequência da divulgação dos resultados provisórios das eleições gerais de 2024, período durante o qual o advogado se notabilizou por posições públicas críticas e contundentes em relação ao processo eleitoral.
No plano operacional, as autoridades informam que já foram detidos três suspeitos, dos quais dois se encontram em prisão preventiva no Estabelecimento Penitenciário Preventivo de Maputo. Entre as diligências realizadas constam audições de várias pessoas consideradas relevantes, bem como procedimentos formais de reconhecimento de suspeitos, visando reforçar os elementos probatórios do processo.
A PGR reitera que o caso continua sob investigação aprofundada, salientando a sua natureza complexa e a necessidade de consolidação de provas antes de qualquer conclusão definitiva. O processo permanece sob forte escrutínio público, numa altura em que persistem expectativas em torno do esclarecimento cabal dos factos e da responsabilização dos autores do crime.

