Os trabalhadores da fábrica açucareira da Tongaat Hulett, em Xinavane, manifestaram forte descontentamento face à decisão da direção de reintroduzir o modelo operacional baseado em três turnos e quatro equipas, uma medida que, segundo a empresa, visa melhorar a organização do trabalho, reduzir a dependência de horas extraordinárias e reforçar a eficiência operacional.
A decisão foi comunicada após um período de avaliação interna e sessões de esclarecimento realizadas nos dias 25 e 28 de fevereiro de 2025, envolvendo representantes das várias secções da fábrica, gestores e a área de Capital Humano. Nesses encontros, a direção apresentou o novo modelo como uma solução para melhorar o equilíbrio entre vida profissional e laboral, reduzir riscos associados à fadiga e garantir maior sustentabilidade operacional.
Contudo, a reação dos trabalhadores não foi positiva. Segundo fontes ligadas ao processo, várias preocupações foram levantadas durante as sessões, sobretudo relacionadas com remuneração, condições de trabalho e compensações financeiras, tendo os trabalhadores considerado as respostas da direção “insatisfatórias” e pouco sensíveis à realidade vivida no terreno.
Entre os principais pontos de contestação está a ausência de aumento salarial associado à implementação do novo sistema de turnos, bem como a recusa da empresa em rever o subsídio de turno, atualmente fixado em 8 por cento. Os trabalhadores defendem que este valor deveria ser ajustado para 25 por cento, em conformidade com o esforço exigido pelo regime de trabalho em turnos.
A direção da empresa, por sua vez, manteve a posição de que não haverá qualquer revisão salarial neste contexto, sublinhando que os aumentos seguem o calendário interno já estabelecido. Foi igualmente rejeitada a proposta de integração das horas extraordinárias no salário base, sendo estas consideradas uma prática excecional.
Outro ponto sensível diz respeito à exigência de indemnizações pela adoção do novo modelo de trabalho. Os trabalhadores defendem que, caso haja alteração do sistema, deve ser garantida compensação financeira, incluindo situações de subcarga horária que alegam não estar devidamente previstas na lei. Esta proposta foi igualmente recusada pela direção, que afirmou não estar previsto qualquer pagamento de indemnizações neste âmbito.
Em paralelo, os trabalhadores levantaram ainda a questão dos pagamentos por trabalho em regime de turnos acumulados desde 2009, afirmando que o valor atualmente pago não reflete o esforço acumulado ao longo dos anos. Segundo os representantes, a empresa paga cerca de 8 por cento, quando deveria, na sua perspetiva, pagar 25 por cento, sendo que exigem também a aplicação imediata desse valor a partir da nova campanha de produção, com base na interpretação da legislação laboral em vigor.
A tensão no diálogo entre as partes é agravada por uma preocupação antiga: o inquérito realizado em 2023, cujos resultados, segundo os trabalhadores, continuam sem retorno concreto. A direção reconheceu que os contributos foram analisados internamente, garantindo que algumas questões estão em processo de tratamento, embora sem avançar prazos ou medidas específicas.
Apesar do ambiente de contestação, a administração da fábrica reafirma que a reintrodução do quarto turno resulta de um processo técnico e organizacional, que visa melhorar a distribuição da carga de trabalho, reduzir a dependência de horas extraordinárias e promover um ambiente laboral mais seguro. A empresa defende ainda que a medida está alinhada com a Lei do Trabalho e com exigências de clientes internacionais.
A comunicação da decisão foi igualmente remetida ao Comité Sindical da unidade, ao Departamento Provincial do Trabalho de Maputo Província e à Inspeção-Geral do Trabalho, sinalizando a dimensão institucional do processo. Enquanto isso, os trabalhadores mantêm a posição de que as suas reivindicações devem ser reavaliadas com urgência, defendendo maior abertura da direção para o diálogo e revisão das condições propostas, num contexto em que o clima laboral tende a ficar cada vez mais tenso com a implementação do novo regime de turnos.

