Imede Falume continua a fazer vista grossa aos atropelos no processo de licenciamento de exportação de madeira

img 20260302 wa0039

As recorrentes denúncias de irregularidades no sector florestal, particularmente nos processos de licenciamento para exportação de madeira, continuam a levantar dúvidas sobre a eficácia dos mecanismos de controlo administrativo.

Entre os casos mais recentes que alimentam estas preocupações está o de uma empresa que obteve autorização para exportar madeira apesar de ter, entre os seus sócios, um cidadão português que, à data da constituição da firma, já era dado como desaparecido em Moçambique há quase uma década – situação que coloca também sob escrutínio a actuação da Direcção Nacional de Florestas, dirigida por Imede Falume.

Trata-se de Américo António Melro Sebastião, desaparecido em 2016 em circunstâncias nunca esclarecidas, depois de alegadamente ter sido sequestrado em Maringue, província de Sofala. Desde então, não houve confirmação pública sobre o seu paradeiro.

Apesar disso, em 2024 o seu nome surge em registos empresariais associado a uma sociedade identificada como Inther-Beira, alegadamente constituída na cidade da Beira.

De acordo com os elementos disponíveis, o cidadão português surge como detentor de 25% das participações sociais da empresa, sendo que, à data da sua constituição, já se encontrava desaparecido há vários anos.

A inclusão de uma pessoa dada como desaparecida na estrutura societária de uma empresa recentemente criada levanta dúvidas sobre o cumprimento dos requisitos legais no processo de registo.

Exigências legais e documentação

Em Moçambique, a constituição de uma sociedade e a obtenção de uma licença de exportação de madeira implicam, em regra, a apresentação de um conjunto de documentos obrigatórios.

Entre estes contam-se o documento de identificação válido, como o passaporte, o comprovativo de residência ou enquadramento legal, os documentos societários assinados por todos os sócios, bem como o Número Único de Identificação Tributária (NUIT) e a certidão de quitação fiscal.

Até ao momento, não foi possível confirmar publicamente a existência destes elementos relativamente ao cidadão desaparecido. Perante este cenário, subsistem dúvidas sobre se os requisitos legais foram integralmente cumpridos ou se poderão ter ocorrido falhas no processo de verificação.

Licença de exportação atribuída

Apesar destas incertezas, a empresa consta de registos oficiais da Direcção Nacional de Florestas e Fauna Bravia como tendo obtido autorização para exportar cerca de 2.100 metros cúbicos de madeira.A atribuição deste tipo de licença envolve procedimentos administrativos que incluem a análise documental, a validação da conformidade dos elementos apresentados e a decisão por parte da autoridade competente.

No caso, o processo de licenciamento de exportação de madeira cabe à Direcção Nacional de Florestas e Fauna Bravia.Neste contexto, as dúvidas levantadas não se limitam à constituição da empresa, abrangendo também os procedimentos administrativos que conduziram à aprovação da licença.

Especialistas em direito administrativo sublinham que decisões desta natureza pressupõem a verificação da identidade dos intervenientes, a validação da documentação apresentada e a confirmação da regularidade fiscal dos interessados.Persistem, por isso, questões sobre que elementos documentais foram considerados no processo, de que forma foram validados e se os mecanismos de controlo previstos na lei foram efectivamente aplicados.

Hipóteses em aberto

Face aos elementos conhecidos, colocam-se diferentes cenários. Por um lado, poderá estar em causa a eventual utilização indevida da identidade de um cidadão desaparecido, o que configuraria situações de natureza criminal, como falsificação de documentos ou fraude.

Por outro lado, não pode ser excluída a hipótese de o desaparecimento não corresponder a uma ausência definitiva, podendo tratar-se de uma situação de ocultação voluntária com eventuais implicações legais.

Em qualquer dos casos, especialistas consideram tratar-se de uma situação que exige verificação factual por parte das autoridades competentes.Processo relativo ao desaparecimento encerradoContactada, a Procuradoria-Geral da República na província de Sofala indicou apenas que o processo relativo ao desaparecimento do cidadão português foi anteriormente encerrado, sem adiantar mais detalhes.

Para além do caso concreto, a situação levanta questões mais amplas sobre os mecanismos de controlo administrativo, nomeadamente no que diz respeito à robustez dos processos de verificação de identidade no registo de sociedades, aos critérios utilizados no licenciamento de exportação de madeira e à eficácia dos sistemas de controlo interno na administração pública.

Até ao momento, não existem confirmações oficiais de irregularidades. Ainda assim, os elementos conhecidos levantam dúvidas suficientes para justificar um eventual aprofundamento da análise por parte das entidades competentes.

Especialistas defendem que o caso poderá justificar uma averiguação mais detalhada, com vista ao esclarecimento das circunstâncias relacionadas com a constituição da empresa e a atribuição da licença de exportação.

Siga-nos e curta nossa página:
error9
fb-share-icon
Tweet 20
fb-share-icon20

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *