A Plataforma DECIDE conclui, na sua segunda edição de análise ao primeiro ano de mandato do Presidente Francisco Daniel Chapo, que o desfasamento entre os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral de 2024 e as medidas efetivamente implementadas ao longo do primeiro ano de governação contribuiu para níveis elevados de frustração e desilusão entre os jovens moçambicanos. O documento sustenta que as expectativas criadas no período eleitoral, quando a juventude foi apresentada como prioridade estratégica do novo ciclo político, não encontraram correspondência proporcional em políticas públicas estruturadas, abrangentes e socialmente acessíveis.
Segundo a análise, a juventude esteve entre os grupos sociais mais activos nas manifestações que se seguiram aos resultados eleitorais de 2024, num contexto marcado pelo agravamento das condições sociais e económicas entre outubro de 2024 e março de 2025. Para a organização, o envolvimento juvenil não pode ser interpretado apenas como expressão de contestação política, mas sobretudo como reflexo direto da precariedade persistente, do desemprego elevado e da ausência de respostas concretas às promessas feitas durante a campanha.
Durante o período eleitoral, foram assumidos compromissos públicos claros para promover o emprego juvenil, facilitar o acesso à habitação, apoiar o empreendedorismo e implementar programas estruturantes de alcance nacional capazes de reduzir desigualdades históricas. Em comícios realizados em Maputo, Beira, Nampula e Nacala, foi reiterada a necessidade de transformar o chamado “bónus demográfico” numa oportunidade real de desenvolvimento económico e estabilidade social. A juventude foi descrita como motor da renovação política e garante da coesão nacional. No entanto, de acordo com a DECIDE, esse protagonismo retórico não se materializou em políticas integradas com metas claras, financiamento robusto e cobertura territorial equilibrada.
No primeiro ano de governação, as iniciativas mais visíveis dirigidas aos jovens foram o projeto Cidade-Jovem, na cidade de Maputo, com previsão de cerca de seis mil habitações, e o Projeto de Terra Infraestruturada, em Faiquete, província de Inhambane, destinado à atribuição de aproximadamente 1.200 talhões. Embora apresentados como sinais concretos de cumprimento das promessas eleitorais, estes projetos são considerados pela organização como limitados no seu alcance social. A análise aponta que os custos associados às habitações da Cidade-Jovem colocam-nas fora da capacidade financeira da maioria dos jovens que auferem o salário mínimo ou rendimentos ligeiramente superiores, o que reduz significativamente o impacto do programa junto da juventude desempregada ou em situação de precariedade, precisamente o segmento que mais necessitaria de soluções habitacionais acessíveis.
A concentração geográfica dessas iniciativas na zona sul do país é igualmente alvo de crítica. A DECIDE argumenta que esta opção reforça um padrão histórico de desigualdade territorial, deixando as regiões centro e norte em situação de desvantagem. Nessas regiões, persistem níveis elevados de desemprego juvenil, informalidade económica e exclusão social. Durante a campanha eleitoral, foram reiteradas promessas de desenvolvimento mais equilibrado e de distribuição equitativa de oportunidades ao longo do território nacional. Contudo, a manutenção da assimetria regional é interpretada como fator que agrava a frustração entre jovens fora do corredor sul e fragiliza a credibilidade das promessas de inclusão nacional.
No domínio da empregabilidade, o relatório sustenta que não se observa, até ao momento, uma estratégia nacional integrada e coerente especificamente orientada para a juventude. Apesar do discurso político centrado na criação de oportunidades de trabalho, não foi apresentado um plano estruturado que articule formação profissional, estímulo à industrialização local, expansão de infraestruturas e formalização progressiva da economia informal. A organização entende que investimentos consistentes nestas áreas poderiam criar bases mais sólidas para a geração sustentável de rendimento e emprego juvenil.
A situação dos chamados “nhonguistas internacionais”, pequenos comerciantes que importam produtos da África do Sul e da China, é apresentada como exemplo de incoerência entre discurso e prática. Durante a campanha, este grupo foi referido como potencial beneficiário de políticas de apoio e integração económica. No entanto, segundo a análise, as medidas observadas no período em avaliação tenderam mais para a restrição e controlo do que para a integração produtiva e o estímulo prometidos, limitando as possibilidades de formalização e expansão dessas atividades.
O setor agropecuário, frequentemente apontado durante a campanha como espaço privilegiado para a inclusão económica da juventude, especialmente nas zonas rurais e periurbanas, também não registou, segundo a DECIDE, a implementação de um programa público de grande escala orientado especificamente para a participação juvenil. Apesar do reconhecido potencial agrícola do país, não foram lançadas iniciativas estruturadas capazes de atrair jovens para o setor com acesso a financiamento, assistência técnica, infraestruturas e mercados. Esta ausência é interpretada como mais um sinal de distanciamento entre as promessas eleitorais e a ação governativa.
O Fundo de Desenvolvimento Local (FDEL), apresentado como instrumento válido para financiar iniciativas juvenis, é considerado insuficiente face ao volume de candidaturas e à dimensão da procura existente a nível nacional. Para além das limitações de cobertura, a organização aponta constrangimentos relacionados com critérios de atribuição, níveis de transparência e sustentabilidade dos projetos apoiados. Na prática, o Fundo não teria capacidade para responder aos desafios estruturais da exclusão económica da juventude, contrariando as expectativas criadas no período eleitoral.
Para além das dimensões económicas e sociais, a análise destaca a exclusão da juventude dos principais órgãos de tomada de decisão, inclusive no âmbito do Diálogo Nacional. Apesar de reiteradamente invocada como pilar da renovação política e da estabilidade do país, a participação juvenil não se materializou de forma efetiva nas estruturas centrais onde são definidas as orientações estratégicas. A presença de jovens tem-se limitado, em grande medida, a espaços consultivos ou simbólicos, sem influência real sobre decisões fundamentais. Organizações e movimentos juvenis, segundo o relatório, continuam a “mendigar” espaços de participação que deveriam ser garantidos por princípio, aprofundando padrões de marginalização política.
Em termos gerais, a Plataforma DECIDE conclui que o primeiro ano de governação ficou marcado por um desfasamento significativo entre as expectativas criadas durante a campanha eleitoral de 2024 e as medidas concretamente implementadas. Esse hiato, sustenta o documento, alimenta um sentimento crescente de frustração entre os jovens e compromete a credibilidade das promessas de inclusão e empoderamento. Sem políticas públicas inclusivas, territorialmente equilibradas e acompanhadas de mecanismos reais de participação juvenil, o discurso de prioridade à juventude corre o risco de permanecer essencialmente retórico, sem tradução efetiva em mudanças estruturais na vida dos jovens moçambicanos.

