A Renamo volta a mergulhar numa crise interna que expõe, com clareza cada vez mais desconfortável, as fragilidades estruturais da principal força histórica da oposição em Moçambique. Generais e oficiais superiores do antigo braço armado não escondem o descontentamento e apontam, sem rodeios, que a saída de Ossufo Momade poderá ser a única via para “salvar” o partido de um colapso político e organizacional.
A posição é defendida por Josefo de Sousa, uma figura respeitada entre os veteranos, que acredita que o congresso extraordinário, ainda por convocar, representa uma última oportunidade para reanimar uma organização que, nos últimos anos, perdeu influência, coesão interna e relevância eleitoral. Segundo o general, a crise já não é apenas de liderança, mas de identidade. A Renamo, que outrora se afirmava como alternativa sólida ao poder, vive hoje mergulhada em disputas internas que fragilizam a sua capacidade de intervenção política. Para muitos dos seus próprios quadros, a continuidade de Momade no cargo simboliza estagnação e falta de rumo.
A liderança de Ossufo Momade tem sido alvo de críticas persistentes, sobretudo por parte dos antigos combatentes, que o acusam de falta de visão estratégica e incapacidade de mobilização. A situação agravou-se após resultados eleitorais considerados desastrosos, que retiraram à Renamo o estatuto de principal força da oposição.
Fontes internas indicam que o próprio Momade já terá admitido não se recandidatar, embora o processo de transição continue envolto em incertezas e suspeitas de manobras para prolongar a sua influência. Circulam ainda informações sobre propostas de regalias pós-presidência, incluindo pensões vitalícias, um tema que está a gerar indignação entre membros que consideram o partido longe de ter condições para sustentar tais privilégios.
A crítica não é apenas política, mas também moral. Alguns quadros acusam a actual liderança de se afastar dos princípios históricos da Renamo, aproximando-se de práticas que, no passado, o partido dizia combater. O congresso extraordinário surge como ponto central desta crise, mas a sua convocação tem sido sucessivamente adiada, alimentando suspeitas de bloqueio deliberado. Para Josefo de Sousa, este atraso representa um erro estratégico grave, defendendo que o novo líder deve ser escolhido com antecedência suficiente para preparar o partido para os próximos desafios eleitorais, sobretudo as eleições gerais de 2029.
A ala contestatária, composta maioritariamente por antigos guerrilheiros, está cada vez mais organizada e vocal. O porta-voz João Machava acusa a liderança de ignorar as preocupações da base e denuncia que decisões importantes estão a ser tomadas sem consenso. Segundo ele, reuniões recentes produziram declarações que não reflectem o debate interno, omitindo pontos cruciais como a exigência de demissão de Momade.
A contestação já ultrapassou o campo político e entrou numa fase mais agressiva, com ocupação de sedes, mobilização de assinaturas e ameaças de intensificação dos protestos. Há também sinais simbólicos fortes, como a substituição de material de propaganda por referências à antiga liderança de Afonso Dhlakama, numa tentativa clara de resgatar o legado histórico do partido.
A crise interna revela uma incapacidade mais profunda da Renamo de se reinventar num contexto político em transformação. O surgimento de novas forças políticas e a perda de espaço parlamentar são sinais evidentes de desgaste, colocando em causa o seu futuro como força relevante. Sem uma reforma profunda, que inclua renovação de lideranças, reconciliação interna e redefinição estratégica, o partido arrisca-se a cair numa irrelevância política progressiva. Ao mesmo tempo, a persistência de conflitos internos pode afastar ainda mais o eleitorado, que procura respostas concretas para os problemas do país.
Apesar do cenário preocupante, ainda há vozes que acreditam numa possível recuperação. Josefo de Sousa mantém esperança de que uma nova liderança, dinâmica e bem orientada, possa devolver vitalidade ao partido. Contudo, essa possibilidade depende de decisões difíceis e urgentes, incluindo a saída efectiva de Ossufo Momade e a realização de um congresso transparente. Até lá, a Renamo continua presa entre o peso do seu passado e a incerteza do seu futuro, numa crise que ultrapassa a política e levanta dúvidas sobre a sua própria sobrevivência.

