Nativos de Songo denunciam exclusão na HCB e questionam benefícios dos mega-projectos

vila do songo

O crescente descontentamento entre os residentes da vila de Songo, na província de Tete, veio ao de cima com a submissão de uma carta aberta dirigida ao Conselho de Administração da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), na qual os nativos denunciam alegadas práticas de exclusão nos processos de recrutamento e integração profissional. O documento, datado de 20 de Abril de 2026, com cinquenta assinaturas, expõe uma preocupação profunda sobre aquilo que os signatários consideram ser uma marginalização sistemática das comunidades locais, mesmo tratando-se de um dos maiores e mais simbólicos empreendimentos energéticos do país.

A situação torna-se ainda mais sensível quando analisada à luz do contexto histórico da empresa. A reversão da HCB para o Estado moçambicano, concretizada em 2007 durante a governação de Armando Guebuza, foi amplamente celebrada como uma conquista de soberania económica, acompanhada por um discurso político que prometia maior inclusão dos moçambicanos na gestão e nos benefícios do empreendimento. Contudo, quase duas décadas depois, os naturais de Songo afirmam que essa promessa não se traduziu em mudanças reais nas suas vidas, levantando dúvidas sobre quem, de facto, beneficia dos recursos gerados.

Segundo os autores da carta, há uma tendência persistente de recrutamento de indivíduos provenientes de outras regiões do país, em detrimento da mão-de-obra local, incluindo jovens com formação técnica e superior. Esta realidade é vista como particularmente injusta num contexto em que a vila de Songo vive sob forte influência directa da barragem, tanto em termos ambientais como sociais. Para os residentes, não se trata apenas de acesso ao emprego, mas de reconhecimento do seu papel enquanto comunidade anfitriã de um projecto estratégico nacional.

Outro aspecto crítico destacado no documento diz respeito à utilização recorrente de trabalhadores sazonais locais. De acordo com os relatos, muitos destes trabalhadores desempenham funções relevantes e chegam, inclusive, a participar na formação de novos quadros. No entanto, ao contrário destes últimos, raramente são integrados de forma efectiva nos quadros da empresa. Esta prática é interpretada como um sinal claro de precarização laboral e de exclusão estrutural, alimentando um sentimento de injustiça e frustração entre os jovens da região.

Para além das questões laborais, os signatários apontam fragilidades no cumprimento das responsabilidades sociais por parte da empresa, sobretudo no que concerne à inclusão de pessoas com deficiência. Num país onde a legislação e as políticas públicas defendem a integração social e económica destes grupos, a alegada ausência de medidas concretas por parte de uma empresa com a dimensão da HCB levanta questionamentos sobre o seu compromisso com o desenvolvimento inclusivo.

O caso de Songo reflecte, de forma mais ampla, as tensões recorrentes associadas aos chamados mega-projectos em Moçambique. Apesar do seu contributo significativo para a economia nacional, estes empreendimentos têm sido frequentemente criticados por não garantirem uma distribuição equitativa dos benefícios, sobretudo ao nível local. Em várias regiões do país, comunidades afectadas por projectos de grande escala têm vindo a exigir maior participação, transparência e retorno social, numa dinâmica que expõe fragilidades na relação entre o Estado, o sector privado e as populações.

Ainda assim, a carta dos nativos de Songo mantém um tom relativamente moderado, privilegiando o apelo ao diálogo em detrimento do confronto directo. Entre as principais reivindicações destacam-se a necessidade de priorizar a contratação de residentes locais, a criação de programas estruturados de estágio e capacitação, a inclusão efectiva de pessoas com deficiência e uma maior transparência nos processos de recrutamento. Para os autores, estas medidas são essenciais para restaurar a confiança entre a comunidade e a empresa.

Até ao momento, a Hidroeléctrica de Cahora Bassa não se pronunciou publicamente sobre as acusações, o que poderá agravar a percepção de distanciamento institucional. Num contexto em que a pressão social tende a aumentar, o silêncio pode ser interpretado como falta de abertura ao diálogo, aprofundando ainda mais o fosso entre a empresa e a comunidade local.

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