Empresa rejeita auscultação pública proposta pela comunidade e acusa movimento de tentar manchar a sua imagem, mas evita responder às preocupações sobre transparência no recrutamento.
Sem conceder a entrevista solicitada pelo 4Vês Repórter, HCB encaminhou o jornal para uma conversa com um “Jornalista de reconhecida trajectória profissional” representante de uma empresa da sua assessoria, que questionou a justiça das denúncias e sugeriu reflexão sobre a necessidade de continuar a abordar o assunto.
A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) decidiu responder publicamente às reivindicações apresentadas por um grupo de cidadãos autodenominados “Nativos de Songo”. Esta posição da empresa surge depois de um grupo de cerca de 50 cidadãos, que se identifica como “Nativos de Songo”, ter exigido esclarecimentos sobre o acesso da população local às oportunidades de emprego numa das maiores empresas públicas do país. Contudo, em vez de acolher a proposta de uma auscultação pública, envolvendo a comunidade e as autoridades locais, a HCB rejeitou o formato sugerido pelos residentes, classificando-o como impraticável e insinuando que a iniciativa poderia transformar-se num “julgamento público” da administração.
Consta que um grupo de cinquenta cidadãos naturais da vila de Songo, no distrito de Cahora Bassa, província de Tete, submeteu uma carta aberta ao Conselho de Administração da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB), denunciando alegadas práticas de exclusão nos processos de recrutamento e integração profissional. No documento, datado de 20 de Abril de 2026, os signatários afirmam que a população local continua a beneficiar pouco das oportunidades de emprego geradas pela empresa, apesar de albergar um dos mais importantes empreendimentos energéticos do país. Segundo a carta, existe uma tendência de contratação de candidatos provenientes de outras regiões, em detrimento de jovens locais com formação técnica e superior.
Os subscritores denunciam igualmente a situação de trabalhadores sazonais da região que, alegadamente, desempenham funções relevantes e chegam a formar novos quadros, mas raramente são integrados de forma permanente na empresa. A situação é apontada como um factor de frustração e exclusão social entre os residentes. Entre as reivindicações apresentadas constam a priorização da contratação de mão-de-obra local, a criação de programas de estágio e capacitação profissional, a inclusão efectiva de pessoas com deficiência e uma maior transparência nos processos de recrutamento. Os autores da carta defendem que as suas preocupações visam promover um diálogo construtivo com a HCB e reforçar a confiança entre a empresa e a comunidade anfitriã. Até ao momento, a Hidroeléctrica de Cahora Bassa não se pronunciou publicamente sobre as questões levantadas.
HCB RESPONDE AOS “NATIVOS DE SONGO”
Na sua comunicação, a HCB procura demonstrar que não existe discriminação contra os naturais de Songo. A empresa afirma que 20,5% dos seus trabalhadores efectivos são oriundos da vila e que quase metade dos seus funcionários permanentes provém da província de Tete. A empresa considera estes números prova suficiente de que existe representatividade local. No entanto, os dados apresentados podem não responder à principal inquietação da população. A questão levantada pelos residentes não parece ser apenas quantos trabalhadores do Songo estão actualmente empregados na empresa, mas sim se os processos de recrutamento são suficientemente transparentes e acessíveis para permitir que as novas gerações da região beneficiem das oportunidades criadas por um empreendimento instalado no seu território.
Um dos aspectos mais controversos da resposta da HCB é a forma como a empresa reagiu à proposta de realização de uma auscultação pública. Os representantes dos chamados “Nativos de Songo” recusaram reunir-se apenas com a administração da empresa e defenderam um encontro aberto, envolvendo a população e as autoridades locais. Em vez de acolher a sugestão como uma oportunidade de reforçar a confiança pública, a HCB classificou a iniciativa como “impraticável”, levantando inclusive suspeitas sobre alegadas intenções de “manchar a imagem” da administração.
Esta posição é interpretada pelo grupo de jovens que escreveu a carta a empresa como um sinal de desconforto perante o escrutínio público. Em reação a resposta da HCB, o grupo em entrevista ao 4Vês Repórter defendeu que em matérias que envolvem recursos estratégicos nacionais e expectativas comunitárias, a transparência costuma fortalecer as instituições e não enfraquecê-las. Destacando ainda que, a recusa de um fórum público acaba por alimentar precisamente as desconfianças que a empresa procura dissipar.
Outro elemento que mereceu análise do grupo é a insistência da HCB em enquadrar as reivindicações dos residentes como uma tentativa de “provincializar” ou “tribalizar” o acesso ao emprego. Os nativos entendem que embora seja verdade que a Constituição da República consagra a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos, essa argumentação pode simplificar excessivamente um problema mais complexo.
“Em diversos países, grandes projectos mineiros, energéticos e industriais adoptam mecanismos específicos de inclusão económica das comunidades anfitriãs, sem que isso signifique exclusão de cidadãos de outras regiões. O debate, portanto, não é necessariamente entre mérito e favoritismo, mas sim sobre a forma de equilibrar critérios técnicos com responsabilidades sociais para com as populações que convivem directamente com os impactos do empreendimento”, disse um dos representantes do grupo ao nosso Jornal.
A empresa enumera ainda na mesma carta um conjunto de iniciativas de responsabilidade social, incluindo programas de empreendedorismo, formação profissional, desenvolvimento de fornecedores locais, construção de infra-estruturas e o Projecto Transformar, que, segundo a HCB, já criou mais de mil postos de trabalho. Contudo, os nativos afirmam que a permanece por esclarecer quantos desses empregos são permanentes, quantos são temporários e qual o impacto real dessas iniciativas na redução estrutural do desemprego juvenil em Songo.
“Em nenhum momento a empresa apresentou dados detalhados sobre o número de candidatos oriundos de Songo que concorrem aos concursos, quantos são seleccionados, quais os critérios de avaliação utilizados ou quantas vagas são preenchidas por recrutamento interno”, reagiu o grupo.
Entretanto, a própria nota reconhece que a HCB não pode empregar toda a população economicamente activa da vila. Trata-se de uma constatação realista. Porém, essa limitação reforça precisamente a necessidade de mecanismos de diálogo permanentes e transparentes entre a empresa e a comunidade, algo que os residentes parecem reivindicar há vários meses. Mais do que uma disputa sobre números, este caso revela ainda um problema de confiança. Enquanto a HCB procura defender a legalidade e o rigor dos seus processos internos, uma parte da população continua a sentir-se excluída dos benefícios de um dos maiores empreendimentos hidroeléctricos de África. Os nativos questionam “se a empresa está tão segura da transparência dos seus procedimentos, por que motivo resiste à realização de um debate público sobre o assunto?”
EMPRESA EVITA ENTREVISTA
A Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) não concedeu a entrevista solicitada pelo 4Vês Repórter para esclarecer denúncias apresentadas por residentes da Vila do Songo sobre alegadas práticas de exclusão nos processos de recrutamento da empresa, tendo optado por remeter o jornal para a mesma nota informativa enviada aos chamados “Nativos de Songo”. O pedido de entrevista foi formalmente submetido pelo 4Vês Repórter no dia 21 de Maio, através de uma carta dirigida à Administração da HCB. No documento, o jornal solicitava esclarecimentos sobre o posicionamento da empresa em relação às denúncias, os critérios de recrutamento adoptados, as políticas de integração da mão-de-obra local, as iniciativas de responsabilidade social e as medidas previstas para responder às preocupações manifestadas pela comunidade.
Em resposta inicial, a HCB informou, por correio electrónico, que daria seguimento à solicitação apresentada pelo jornal. Cinco dias depois, a 26 de Maio, representantes do 4Vês Repórter reuniram-se com um jornalista de reconhecida trajectória profissional que se apresentou como colaborador de uma empresa contratada para prestar serviços de assessoria de imprensa à HCB. O encontro não teve carácter de entrevista nem produziu qualquer posicionamento oficial da empresa sobre as questões submetidas. Durante a conversa, foram apresentados vários projectos sociais e económicos implementados pela HCB no Distrito de Cahora Bassa, tendo igualmente sido defendida a ideia de que as reivindicações apresentadas pelos “Nativos de Songo” não seriam justas.
Ainda durante o encontro, o representante da assessoria terá sugerido ao jornal uma reflexão sobre a pertinência de continuar a procurar esclarecimentos sobre o caso. Apesar disso, o 4Vês Repórter manteve a intenção de ouvir a posição oficial da empresa, insistindo na necessidade de uma entrevista formal que permitisse abordar directamente as questões colocadas na carta enviada à Administração da HCB. Na ocasião, o jornal foi informado de que seria contactado, ainda naquele dia, pelo responsável da área de Comunicação da empresa para agendar a entrevista solicitada. O contacto, porém, nunca chegou a acontecer.
A comunicação entre as partes foi retomada apenas no dia 03 de Junho, quando o mesmo representante da empresa de assessoria voltou a contactar o jornal para encaminhar a nota informativa que a HCB havia dirigido aos “Nativos de Songo”, indicando que aquele documento deveria igualmente servir como resposta às questões colocadas pelo nosso Jornal. Importa destacar que outro aspecto que chama atenção na resposta da HCB é o tom utilizado contra os autores da reclamação. A empresa sugere que a circulação da carta nas redes sociais e junto dos órgãos de comunicação social poderá revelar intenções “maliciosas” e “dolosas”, destinadas a prejudicar a imagem da administração.

