Está suspenso o diálogo entre a Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) e um grupo de 50 cidadãos autodenominados “Nativos de Songo”, signatários de uma carta de reclamação dirigida à empresa, na qual reivindicam maior inclusão dos residentes locais nos benefícios económicos gerados pelo empreendimento. A HCB havia agendado para esta quinta-feira (18) um encontro com os reclamantes, após sucessivas insistências da própria empresa. Contudo, o grupo recusou participar na reunião por considerar que o modelo de diálogo proposto não responde às suas exigências. Os signatários defendem a realização de um encontro público e alargado, com a participação de líderes comunitários, autoridades governamentais e outros actores sociais relevantes.
Em comunicação enviada por correio electrónico, a HCB informou o reagendamento do encontro, justificando a decisão com a alegada indisponibilidade dos reclamantes para dialogar nos moldes propostos pela empresa. Porém, a questão parece ir além de uma simples divergência sobre o formato da reunião. Os nativos afirmam que o actual ambiente não oferece garantias mínimas de confiança. Segundo relatam, informações difundidas em alguns órgãos de comunicação social, provenientes da própria HCB, têm associado os signatários da carta a intenções maliciosas e interesses obscuros, numa narrativa que, dizem, procura descredibilizar as suas reivindicações e proteger a imagem da administração da empresa. Entendem ainda que a HCB têm usado a imprensa para lavar sua imagem através de narrativas sem sentido, diabolizando os nativos.
A desconfiança é reforçada por experiências anteriores. Os reclamantes recordam o caso dos taxistas de Songo, em que, apesar da aparente abertura ao diálogo por parte da HCB, alguns intervenientes acabaram posteriormente notificados pelas autoridades policiais. Para os nativos, este antecedente levanta receios legítimos quanto às consequências de uma participação num encontro restrito e sem observadores independentes.
É neste contexto que o grupo encara a proposta da empresa com reservas, considerando-a mais próxima de uma armadilha do que de uma oportunidade genuína de entendimento. Os reclamantes questionam, igualmente, por que razão a HCB continua a rejeitar a realização de um diálogo público, transparente e inclusivo, envolvendo diferentes sensibilidades da sociedade local. Este impasse expõe, uma vez mais, as fragilidades das relações entre instituições e comunidades. Quando o diálogo deixa de inspirar confiança, perde-se a sua principal função, servir de ponte para a resolução pacífica de conflitos e para a construção de consensos.
NTAIMO|2026

